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A dor e o medo que só as mulheres conhecem

Adriano Silva

30/06/2020 04h00

 

 

Tem ameaças que pairam como sombra sobre todos nós. E outras que pairam muito mais pesadamente sobre as mulheres – ou exclusivamente sobre elas.

Se você é homem e ainda não se deu conta disso, coloque-se no lugar da sua mãe. Que muito provavelmente foi criada sob a noção de que sexo, para mulheres, é fardo e vergonha. Ou então moeda de troca, um serviço que se presta aos homens, em troca de alguma segurança material.

Coloque-se no lugar da sua mulher. Que com frequência tem mais dificuldade para conseguir um bom emprego do que seus pares de sexo masculino. Ou que, quando consegue a vaga, não está livre de ganhar menos do que os homens em funções semelhantes.

Coloque-se no lugar da sua filha. Que é vista por boa parte dos machos como um prêmio sexual a ser conquistado – ou como um alvo para agressões verbais, que ficam muito próximas da agressão física. (O assédio tem muito menos a ver com sexo do que com violência.)

Toda mulher brasileira tem algum tipo de experiência com assédio.

Na rua. No transporte. Na escola. No escritório. No clube. No restaurante. À noite. De dia. Ao sair de casa. Na portaria. No táxi. E também dentro de casa.

No modo como é olhada ou ignorada, como falam com ela ou como lhe deixam falando sozinha, como não lhe deixam falar ou como se referem a ela.

Esses dias escrevi sobre isso.

Não é confortável para uma mulher brasileira caminhar sozinha na rua. Não é simples a uma mulher usar a roupa que bem entender. Nem ir ao cinema ou ao bar sozinha. Nem tomar um táxi ou esperar o ônibus sozinha.

Mulher tem que sorrir mais do que os homens para sobreviver socialmente. E ser delicada quando queria mandar a real. E não dizer diretamente quando a situação pedia que se dissesse na lata.

Mulher tem que figurar sempre bonita, bem vestida, maquiada, alinhada, perfumada – coisas que não são exigidas dos homens são pré-requisitos para as mulheres.

 

As relações de poder estão aí. E nos tensionam em nossas trocas com as pessoas ao redor. As mulheres não são as únicas pessoas a serem constrangidas, e a se deixarem constranger, em sua relação com gente mais poderosa. E há mulheres opressoras também, inclusive em sua relação com outras mulheres.

E, como acontece com todo grupo discriminado por uma característica fortuita, é espantoso que a questão de gênero possa, por si só, garantir tanta dor de cabeça às mulheres.

Um extraterrestre recém-chegado ao planeta ficaria com a impressão de que a vagina é um azar, de que a vulva é um carma, de que um par de mamas é uma maldição.

Lembro de uma mulher, que morava ao lado da casa de meus avós, no interior do Rio Grande do Sul, onde eu passava as férias. Ela apanhava do marido. Já era o início dos anos 80. Ela gritava dentro da casa fechada. E ninguém atendia. Todos silenciavam. Era como se fosse um assunto íntimo, familiar, no qual ninguém devesse interferir. A ninguém jamais ocorreu chamar a polícia. Inclusive porque o marido era um policial militar.

Mais acima naquela mesma rua, alguns anos antes, no final da década de 70, morava uma família de agricultores. O homem batia na mulher, na frente dos três filhos pequenos, que tentavam defendê-la dos murros do pai. O homem às vezes era ajudado em sua rotina pelo pai – dela.

E tinha aquela menina, minha amiga de infância, que apanhava do irmão na rua, em cena aberta. A mãe a queria no quintal de casa. Ela fugia para brincar com a gente. O irmão era o capitão-do-mato que a capturava. E o feitor que a castigava.

Tantas histórias tenebrosas. Tantos testemunhos do horror imposto às mulheres.

 

Minha mulher, num dos primeiros encontros profissionais que teve no Canadá, com uma consultora que ajudava na adaptação cultural dos talentos recém-chegados ao país, disse algo assim: "No Brasil talvez você fosse vista como uma mulher. Aqui você será vista como um indivíduo".

É uma frase cheia de significados. De um lado, faz ver que, num ambiente gender neutral, somos pessoas, apenas pessoas, semelhantes em tudo umas às outras, muito antes de sermos entendidos, ou nos posicionarmos, como homens ou mulheres. Num ambiente neutro em relação ao gênero, você vale pelo que faz e diz e sabe – não pelo tipo de genitália que tem no meio das pernas.

De outro lado, aquela frase faz ver o quanto ainda somos sexistas no Brasil. Das roupinhas azuis ou rosas ao gesto de abrir a porta do carro ou deixar o outro pagar a conta (ou todas as contas, se colocando em posição de doce dependência). Da cintura dura dos homens, como quem tivesse que mover por aí, por via das dúvidas, com o fiofo permanentemente trincado, aos trejeitos lânguidos das mulheres, como se tivessem a obrigação de ser sempre suaves, invaginantes, macias.

E não é fácil para uma mulher brasileira se despir dessa prisão de gênero. (Assim como não é fácil às mulheres japonesas escaparem ao grilhão de serem sempre kawaii – doces, adoráveis, fofas, queridinhas.) Essa é uma roupa com a qual a mulher fica tão acostumada que já sente como se fosse a sua pele.

No Brasil, ser "feminina", o que inclui doses reforçadas de sensualidade – coisa que é bacana como escolha e horrível como imposição –, se confunde com a própria identidade de boa parte das nossas mulheres desde muito cedo na vida.

(Quando você escapa a essa ditadura da roupa, da boca, do cabelo, da unha, das curvas e fendas, e a vaidade passa a ser uma propriedade sua e não um imposto que você precisa pagar aos outros, a sensação parece ser muito libertadora.)

 

Tive uma coluna, por alguns anos, nas revistas Nova e Marie Claire, em que escrevia cartas às mulheres a partir da perspectiva de um amigo sincero – e não de um oponente no jogo sexual. Sempre me considerei um homem feminista e achava que as colunas ofereciam às leitoras a cumplicidade de um olhar masculino, não-machista, ao universo feminino.

Hoje, passados 15 anos, penso que muitos daqueles textos seriam impublicáveis – por tolos ou por reforçarem, mesmo que inadvertidamente, padrões de comportamento baseados em preconceitos, mesmo que funcionais.

O mundo parece ter evoluído, e muito, e para o lado certo, nas duas últimas décadas. Mas ainda falta um bocado.

(Para um homem da minha geração – faço 50 daqui a pouquinho –, a melhor coisa a fazer é admitir que você não sabe mais o que dizer nem como agir, e que é preciso reaprender, lá do início, a lidar com as mulheres e a se movimentar dentro das novas perspectivas de gênero.)

Antigamente, dar-se ao respeito era, para as mulheres, uma imposição machista. Hoje, dar-se ao respeito é uma urgência feminista.

E o que é feminismo? Respeitar as mulheres. Tão simples quanto isso. Acreditar que não há qualquer diferença entre os gêneros que justifique direitos e deveres e possibilidades distintas entre homens e mulheres. Ponto.

É fundamental que tenhamos cada vez mais homens feministas. E ainda mais importante que cada vez mais mulheres também o sejam.

 

Leia também: Três coisas que você precisa dizer às pessoas que lhe são importantes

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.