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A autodeterminação dos povos é implacável e revela muito sobre o Brasil

Adriano Silva

16/06/2020 04h00

 

Foto: EPA-EFE/ANTONIO LACERDA

Foto: EPA-EFE/ANTONIO LACERDA

 

Os estadunidenses querem o governo longe da sua casa. É uma questão histórica, profundamente arraigada à cultura daquele país.

O sagrado direito à posse de armas nos Estados Unidos, por exemplo, não está baseado na defesa de um cidadão diante do possível ataque de outro cidadão – 75% dos estadunidenses que possuem armas entendem que a Segunda Emenda da sua Constituição expressa um direito à defesa individual contra a "tirania", ou seja, contra uma possível agressão do governo.

A discussão por lá nem chega a ser o uso exclusivo da força pela autoridade constituída – o Estado – versus o direito individual de defender a própria integridade usando para isso o melhor recurso à disposição – no caso, uma arma.

Nos Estados Unidos, a questão é anterior: trata-se de uma desconfiança do cidadão, montado nas prerrogativas da liberdade individual, em oposição à própria autoridade – eles querem o direito civil de poder defender a si e a sua família inclusive do Estado.

Então é apenas compreensível que muitos estadunidenses tenham se insurgido, desde o começo da crise do Covid-19, contra leis e governos que tentem se imiscuir nas suas sagradas prerrogativas de ir e vir, ou de abrir as portas dos seus negócios.

 

No Canadá, onde vivo, os cidadãos têm uma relação de confiança maior com seus governantes. Eles tendem a acreditar mais nas suas autoridades. Nutrem mais disposição a dar sua contribuição individual para o bem-estar da coletividade. O senso de comunidade é mais forte no Canadá. Espera-se que você siga as orientações e que abra mão de privilégios particulares em nome do bem comum.

Delinquentes que quebram essa regra de responsabilidade compartilhada e de boa convivência não conseguem se esconder atrás de uma aura de malandros adoráveis ou de heróis do self-made-manship – são vistos como cuzões mesmo, como gente egoísta que não dá a mínima para os outros.

 

Já os brasileiros costumam ter confiança zero nas autoridades. Os poderosos sempre operaram pela própria locupletação, sempre trabalharam unicamente pelos seus interesses de classe, dando uma banana para o resto da sociedade. Então a gente simplesmente não acredita no que eles dizem. (Até quando dizem barbaridades a gente acha que não é de verdade – e depois se surpreende quando eles levam a cabo as ameaças que fizeram e que a gente não levou a sério.)

Lembro de um taxista, pacato senhor de cabelo escovinha e bigode fino, respeitável pai de família, que passava o cinto de segurança – mas não o fechava. Ou seja: ele tinha todo o trabalho de realizar aquela ação, mas não a completava. Tinha gosto por sabotar a regra. Numa espécie de resistência silenciosa à lei. (Ou simplesmente pelo prazer da contravenção.)

O brasileiro, de modo geral, vive em constante estado de desobediência civil. E a gente nunca sabe quando isso é resistência heroica à opressão da vez ou mero espírito de porco. (Ou banditismo puro e simples.)

A malandragem brasileira pode ser entendida como um mecanismo de autodefesa, construído historicamente, diante de um sistema injusto. E pode significar também a mais absoluta (auto)sacanagem.

Como nunca confiamos nas instituições, que nunca funcionaram pelo bem-comum, a lei entre nós é ignorar a lei. E atuar no modo cada um por si, cada qual resolvendo o seu e passando por cima do outro.

Por isso os sistemas, em geral, não funcionam bem no Brasil: um sistema precisa que cada um dê um pouco de si para que a engrenagem funcione bem para todos. A nação de cada brasileiro é o seu núcleo familiar. E ponto. Para lá dos meus pais, irmãos, filhos e netos, é terra estrangeira. É país inimigo.

Se sociopata é aquela pessoa absolutamente insensível em relação ao outro, incapaz de sentir ou exercer empatia, que vive numa bolha individual autossuficiente, em regime de profundo e frio egocentrismo, pronta para cometer atrocidades sem sentir qualquer remorso, bem, somos um país de sociopatas.

 

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Daí a quarentena, o isolamento, o lockdown, o distanciamento social, terem fracassado entre nós. A pandemia requereu dos brasileiros alguns gestos coletivos, de união entre todos, muito difíceis de acontecer no Brasil: a gente não reconhece a coletividade, não existe a ideia de comunidade, o todo é uma abstração inalcançável, o outro é um estranho – que nos causa mais desconfiança do que compaixão.

Bolsonaro dispensa comentários em sua estultice, em sua insensibilidade, em sua desumanidade. No entanto, apesar da contribuição perversa que esse governo deu aos números mórbidos do coronavírus no Brasil, ele não é a causa da burrice e do autoritarismo em curso no Brasil – ele é uma expressão desses comportamentos que habitam a alma do brasileiro médio.

A gestão da crise foi inepta. A atuação oficial, estúpida. As falas e os gestos presidenciais, criminosos. Mas isso não explica nem justifica as ruas cheias de gente, os engarrafamentos em saída de feriado, a sanha por lotar shopping centers.

Não me refiro, evidentemente, a quem não pode ficar em casa, por razões econômicas – mas a quem tinha condições de permanecer em casa e não ficou. Me refiro aos 3,9 milhões brasileiros das classes A e B que se inscreveram para receber os 600 reais da ajuda emergencial do governo, e postaram em suas redes sociais fotos dos churrascos realizados ao redor de piscinas com esse dinheiro que deveria estar socorrendo gente na base da pirâmide.

Me refiro às famílias de classe média que exigiram que suas empregadas domésticas comparecessem ao trabalho, como se não fossem seres humanos cujas vidas merecessem ser resguardadas, mesmo que para isso tivessem que tirar seus próprios filhos de casa (alguns para morrer sob a indiferença negligente dos patrões), porque gente de bem é incapaz de lavar a própria louça e de limpar o próprio banheiro.

Não existe álibi para isso em governo algum. A culpa por isso é nossa. Bolsonaro é apenas um outro crime de lesa-pátria que cometemos. Honestamente, não estamos em posição de apontar o dedo a ninguém. Os filhos da puta somos nós.

 

Como pano de fundo, um funcionamento tipicamente brasileiro: a sensação de que nada vai nos acontecer; de que deus não apenas existe, mas também é brasileiro; de que sempre daremos um jeito. Exatamente por isso, deixamos de prevenir. Temos verdadeiro horror ao planejamento. Deixamos tudo para o improviso, para o jeitinho, para a gambiarra. Esperamos que a divina providência venha nos salvar. Como resultado, só atuamos depois que a tragédia já se estabeleceu.

Tapamos os buracos, colamos um esparadrapo, amarramos um arame. Enterramos os corpos. E assim vamos batucando – deixa a morte me levar, morte leva eu – até a próxima tragédia.

Isso vale para as enchentes em São Paulo, para os deslizamentos de terra no Rio, para toda sorte de má sorte no país. Como esperar que com o Covid pudesse ser diferente?

 

E assim cada país vai construindo a sua história. O Canadá teve uma curva de contaminação e de mortes muito parecida com o Brasil, nos primeiros 30 dias a contar da primeira morte. Passaram-se outros 50 dias, e hoje o Brasil representa quase 25% das mortes diárias do planeta – mais de 1 000 mortes por dia, em média, contra 50 mortes diárias no Canadá.

Total de mortes por coronavírus, no Canadá, até 13 de junho: 8 100. Total de mortes no Brasil até essa data: 41 900. É bastante possível que o Canadá não chegue a registrar 10 000 mortos. Qual será a marca brasileira? Sessenta mil mortos? Oitenta mil?

Nada acontece à toa. Se temos esses números, é porque os construímos. Por escolha ou por omissão. Nas eleições ou no dia a dia. Não importa. Toda ação tem consequência. Toda inação também. Num ambiente democrático, em que podemos autodeterminar nosso destino, somos responsáveis tanto pelas conquistas quanto pelas catástrofes que nos sucedem.

 

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Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.