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A pior pandemia em curso hoje no Brasil é a da burrice e do coice

Adriano Silva

12/05/2020 04h00

A Alemanha nazista produzia nazistas. A Alemanha reunificada produz gente com pensamento humanista e solidário.

O Japão imperial era uma sociedade xenófoba, guerreira e invasora. O Japão que emergiu das cinzas da Segunda Guerra trouxe à luz um povo pacífico e cosmopolita.

Ideias são vírus que se espalham rapidamente entre as pessoas. (O significado original de "meme", cunhado por Richard Dawkins, é esse – conceitos são como genes lutando para se perpetuar; para quem você e eu, indivíduos, somos mera plataforma de reprodução.) Da mesmíssima forma, comportamentos se espalham entre nós por contágio.

O Canadá, país que vim a conhecer recentemente, estimula as pessoas a serem respeitosas umas com as outras. Então, se você está no Canadá, você tende a respeitar mais a individualidade alheia. É contagioso.

Você já ouviu que muitos brasileiros mudam de comportamento no exterior. No Brasil, param em fila dupla e jogam lixo no chão. No estrangeiro, se tornam cidadãos um pouco melhores.

O contrário também é verdade. A tendência de um dinamarquês no Brasil é em breve estar avançando no sinal amarelo ou subempregando uma mucama em sua casa – coisas impensáveis no seu país.

AS PESSOAS SE TRANSFORMAM NAQUILO QUE DESEJAM SER. PAÍSES TAMBÉM.

A soma das ideias que preponderam num determinado lugar define os limites do que é socialmente aceito ou não naquele ambiente. Desde estacionar ilegalmente em vagas especiais até linchar alguém na rua. Desde mentir na televisão (ou via Whatsapp) até estuprar a própria mulher e espancar os filhos no sacrossanto ambiente do lar.

O Brasil expresso na estética da Bossa Nova, naquela promissora virada dos anos 50 para os 60, era um país ensolarado, lírico, liberal, prazenteiro. Construíamos (nem que fosse só na música e na poesia) um lugar elegante em sua delicadeza, sedutor em sua suavidade, sofisticado em sua simplicidade, casual na modernidade e no cosmopolitismo que propunha. E como a gente se enxergava assim, a gente acabava agindo assim também. A gente se via representado dessa forma e acabava se transformando naquilo que via.

Hoje vivemos como nunca num país liderado pelo ódio. Muitos brasileiros passaram a cultivar a intolerância em suas interações sociais, a abraçar a incivilidade em suas rotinas. E a vibrar com o tosco, aplaudir a grosseria. E a chafurdar no pensamento religioso, desprezando o raciocínio científico. E a recusar a racionalidade e a inteligência em nome de qualquer simplificação que exorcize a complexidade. E a abraçar o negacionismo, dando uma banana para os fatos – como se o direito de expressar uma opinião nos permitisse ignorar evidências e renegar dados.

Veja que nada disso descende de Brasília. Nós é que colocamos tudo isso lá. O Brasil não se resume a seus governantes – mas nossos governantes são um espelho do Brasil.

AS IDEIAS QUE VOCÊ DISSEMINA VOLTAM PARA VOCÊ COMO UM AFAGO – OU COMO UM SOCO

As ideias surgem de nós. Elas não se inventam sozinhas nem nos inventam – nós é que as criamos. Mas quando elas saem de nós, e se espalham, convencendo pessoas, gerando novos convertidos, elas como que ganham vida própria. Vão mutando, ganhando novas nuances em sua construção interna, agregando novos argumentos, aumentando sua resistência a críticas. Até que algumas delas se tornam hegemônicas. Viram pandemia. E aí definem as feições que certas sociedades terão ao longo de certo tempo.

Pense num país como um aglomerado de pessoas que cultivam um bocado de ideias diferentes – e que são influenciadas por elas. Essas ideias são "memes" que disputam hospedeiros entre si o tempo todo. Algumas delas, em algum momento, eclodem, e se tornam hegemônicas por determinado período. Até perderem força e voltarem a seu estágio dormente. Ideias não desaparecem. Elas apenas hibernam por alguns períodos.

Para quem tem filhos, escolher bem o contexto cultural em que eles serão criados é uma medida essencial que a gente no mais das vezes subestima. Você não ficaria tranquilo em criar seus filhos num lugar insalubre para a sua saúde física, coalhado por vírus, bactérias e micróbios.

Então é apenas razoável que você também não fique tranquilo em criar seus filhos em um lugar insalubre ao comportamento ético e à convivência social civilizada, marcado pelo ódio, pela ofensa, pelo preconceito.

Eis o ponto: a higiene e as boas condições de um determinado lugar precisam estar presentes também em seu entorno social.

Se o Brasil fosse uma praia, teria hoje um enorme aviso de "condições impróprias para o banho" fincada na areia. Vale frisar: não somos vítimas dessa temporada sombria – nós a escolhemos.

A INCIVILIDADE E A ESTUPIDEZ NUNCA FORAM TÃO HEGEMÔNICAS NO BRASIL

Você é a média das pessoas com quem convive. Seus filhos também. Hoje, e já desde há alguns anos, o ambiente brasileiro está marcado por uma pandemia – da ignorância e do coice. Admitimos a truculência de peito aberto, fizemos o elogio da agressão. E agora temos esse ambiente burro e brutal em que estamos criando nossos filhos.

Supondo que você seja um democrata, um liberal, um humanista, de qualquer plumagem, ou que simplesmente não seja um idiota completo ou um xucro inelutável, será preciso discutir muito, dentro de casa, as atitudes e os valores em que você acredita. E mais do que defender com palavras uma certa conduta para a sua família, será preciso exercê-la, dar o exemplo, mostrar na prática de que lado você está.

Porque a influência da rua, da escola, do clube, do shopping, da política, nesse momento do país, é deletéria. (Veja: o Brasil sempre esteve amigado com a incivilidade, nunca recusamos de verdade, por princípio, a barbárie. Mas, ao mesmo tempo, esses elementos nunca foram tão hegemônicos quanto nesse momento de nossa História. Nunca vimos o ódio ser tão aplaudido por tanta gente nas ruas, sob a luz do sol.)

Esse tipo de coisa penetrará a trama da roupa dos seus filhos, e se aderirá à pele deles, e buscará entrar por osmose em seus organismos, para lhes ganhar a alma.

Esse contágio – da estupidez, da brutalidade, da cretinice – é o pior dos riscos que corremos hoje no Brasil.

(Foto: Claudia Martini.)

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Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.