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Antídoto contra dias sombrios: valorize cada pequena conquista

Adriano Silva

14/04/2020 04h00

 

Se a tremenda importância de ser feliz todo dia lhe soar algo óbvio, parabéns.

Se encontrar regozijo nas pequenas coisas for algo comum em sua vida, receba o meu abraço e o meu aviso: esse texto não é para você.

Escrevo para todas as demais pessoas que com frequência esquecem de que é preciso ser feliz hoje – e não amanhã.

E de que é preciso curtir o que você está fazendo e quem você é agora – e não trancafiar a sua alegria dentro de um objetivo futuro.

Muita gente esquece disso. Ou releva a importância disso.

Especialmente quem é estoico, como eu.

Funciona assim: diante da dificuldade, você fica ainda mais austero. Engrossa o couro. Franze o cenho. Cerra os punhos. E se prepara para enfrentar a intempérie colocando os sorrisos em quarentena até o céu desanuviar.

A questão é que, ao deixar de sorrir, ao impor ainda mais contrição à sua vida, você não faz o sol voltar a brilhar mais rápido. Você só aumenta seu próprio sofrimento durante o período de sombras.

Deixe eu lhe dizer, de raçudo para raçudo ou raçuda: ache o que lhe faz feliz. (Se não souber, descubra.) Saboreie. Reconheça. Repita. Se permita. Sem culpa.

Isso é fundamental. Inclusive como combustível para atravessar o vale de agruras. Como alento necessário para a manutenção de sua saúde mental.

Você não estará sendo menos responsável nem menos comprometido se se permitir alguns instantes de felicidade em meio à faina.

Cultivar momentos de alegria significa apoiar a si mesmo durante a batalha.

A hora é de segurar os gastos. Mas não os abraços. Nem os gestos de carinho, as demonstrações de afeto, as palavras de conforto ou de incentivo.

A hora é de ser solidário, de acolher, de não deixar ninguém atrás das linhas inimigas – a começar por você mesmo.

 

Estamos atravessando um momento muito puxado da história humana. 2020 será um ano de perdas para todo mundo. Perderemos pessoas queridas, milhares de vidas mundo afora, empregos, finanças pessoais, proximidade física com amigos e familiares, empreendimentos.

Mas não precisamos perder a autoconfiança. Nem o gosto pela jornada que cada um de nós está empreendendo. Nem o entusiasmo para seguirmos trabalhando. Ao contrário: precisaremos de muita energia, precisamente agora, para ir adiante, retomar o passo, reinventar a vida.

Mais do que nunca, será preciso defender o seu prazer individual de estar vivo. E redescobrir, nos pequenos detalhes do cotidiano, aquilo que lhe faz feliz. É isso, sobretudo, que teremos para compartilhar uns com os outros – esperança. E daí que virá a força coletiva para retomarmos nossas rotinas.

Todos nós já vivemos e ainda viveremos passagens ásperas em nossas vidas. Ainda assim, uma catástrofe global pode nos ensinar – ou nos lembrar – como superar momentos duros e sombrios.

É ótimo cultivar metas vultosas. Sonhar grande e bonito. Mas é um erro relegar sua felicidade a esses bilhetes de loteria trancafiados em cofres colocados no alto de postes.

Essa freada brusca na economia mundial, e o cavalo de pau que ela impõe em nossas carreiras, pode servir para reavaliarmos um pouco o modo como estamos vivendo. Nossos hábitos. Os sonhos que decidimos sonhar. Os valores que abraçamos. Onde, afinal, estamos investindo nosso sangue e nosso suor.

Em períodos assim, de grande incerteza e desconforto, é importante (re)descobrir aquilo que lhe faz bem. Regozijar diante dos passos mais simples. Reconhecer os avanços, por menores que sejam. Comemorar cada pequena vitória.

 

A proximidade com os filhos. A manutenção da saúde de todos em sua casa. Um abraço apertado. Um olhar que vai encontrar o outro lá no fundo do olho. Um telefonema mais longo para quem está longe. Ir para o chão com o caçula.

A continuidade de um contrato. Trabalhar mais de perto com o time, com os clientes, com os fornecedores.

A oportunidade de continuar trabalhando – ou então de procurar um trabalho melhor. A continuidade do seu emprego – ou a chance de finalmente empreender aquele negócio que você guarda na gaveta.

Revisar os gastos e perceber o tanto de coisas que você não precisa. Redescobrir roupas que há muito você não usava. E, ao ir às compras de modo mais seletivo, comer menos e melhor. Prestando mais atenção ao que você está comendo. Cozinhando o alimento que você vai ingerir.

Começar a estudar algo diferente, aprender algo que você não sabia. Ter, talvez, algum tempo extra para ler bons livros.

Reservar 30 minutos por dia para fazer abdominais, flexões e alongamento – e ver que essa rotina simples lhe faz bem.

Cuidar da casa distribuindo as tarefas em família – e ver que esse trabalho em equipe é bom.

Prestar atenção ao que estão lhe dizendo. E ao que não lhe dizem. Ponderar as palavras que entram pelos seus ouvidos – e as que saem da sua boca.

Prestar atenção às pessoas ao redor. Aos seus gestos. A como reagem com o olhar e com o corpo. E aos sorrisos – os dos outros e os seus – que emergem tanto na mesa de jantar quanto na sala de videoconferência.

Deixar que as pessoas que você ama saibam o quanto você as ama.

Ser generoso com quem lhe procura. Dar de si tudo o que você tiver para dar.

E ser grato por um gesto de acolhimento, pela simpatia com que lhe brindarem, por qualquer abertura de porta ou ajuda recebida.

E aprender a retribuir tudo isso. Ou melhor ainda: tomar a inciativa de ajudar. Oferecer a mão a alguém antes que alguém lhe ofereça a mão.

Recusar os comportamentos tóxicos que estão dentro de você. E que ferem os outros ao redor. E que lhe corroem por dentro.

Apreciar elementos fundamentais à vida nesse planeta que a gente em geral ignora: o azul do céu, o calor do sol, o frescor da brisa, a sensação boa da noite caindo depois de um longo dia de trabalho.

E se deleitar com um gole de água fresca. E com o sabor de uma fruta comida aos poucos.

 

Nada disso significa apequenar seus padrões. Aliás, esqueça essa história de "aumentar a altura da barra". A vida não é uma prova de salto em altura.

Isso também não implica ser piegas. Esqueça essas poses autossuficientes, artificialmente charmosas e falsamente bem resolvidas que abundam nas redes sociais.

Estou falando aqui apenas de (re)aprender a viver. De exercer a sua humanidade. De ser mais feliz. Com os outros. E consigo mesmo.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.