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Quantas mulheres você assediou no último ano?

Adriano Silva

08/03/2020 15h17

Faço essa pergunta de peito aberto: que mulher nunca foi assediada no Brasil?

Não é um recurso estilístico, não é um título chamativo, é uma pergunta que faço de boa-fé. Querendo ouvir respostas, conhecer depoimentos.

Considere o assédio físico. A brutalidade contra a mulher. Soco, tapa, empurrão. Tiro, facada, ácido, ferro quente. O lugar por excelência do feminicídio no Brasil é o lar. O pilar da nossa sociedade cristã. O refúgio dos nossos cidadãos de bem. O que põe o marido, e o pai, e os irmãos e primos e agregados, como os maiores agressores de mulheres entre nós.

Mas não olhe para o lado. Pense em quantas vezes você não foi de algum modo violento ao se relacionar com as mulheres da sua família, ou em seu círculo mais íntimo. Quantas vezes você viu e não denunciou.

Considere o assédio sexual. A palavra pegajosa, invasiva. O toque hediondo, intrusivo. O exercício da força masculina contra a vontade feminina. A imposição do desejo do homem sobre o desejo da mulher. A hegemonia do "sim, agora, do meu jeito" sobre o "não é não". Jugo. Agressão. Estupro.

Mas não olhe para o lado. Pense em quantas vezes você não forçou a barra, você não exigiu o que queria como se ela fosse sua propriedade ou como se ela lhe devesse alguma coisa. Quantas vezes você não a desrespeitou e subtraiu dela o direito de tomar decisões autônomas sobre a sua libido e o seu corpo. Quantas vezes você não ficou sabendo e se calou.

Considere o assédio moral. A violência verbal. A humilhação por meio de substantivos ofensivos, e de adjetivos cortantes, ou de um tom de voz desrespeitoso, ou de um volume de voz opressivo. Xingamentos. Chantagem. Vitupérios.

Mas não olhe para o lado. Pense em quantas vezes você não se dirigiu de modo indigno a uma mulher, só porque ela era mulher. Quantas vezes isso não aconteceu diante de você e você nada fez.

Considere o assédio profissional. O salário muitas vezes menor pago a mulheres em funções em que homens ganhariam mais. O sexismo de posições subservientes, de apoio e suporte a homens, desenhadas para serem ocupadas por mulheres. O sexismo de atividades ainda associadas prioritariamente a obrigações femininas, e que homens evitam fazer, com uma espécie de privilégio de gênero – limpar a casa, cozinhar, cuidar da roupa e das crianças.

Considere a relativa ausência de mulheres em cargos de alta direção nas empresas. E a falácia de características "masculinas" e "femininas" de comportamento e de gestão que no mais das vezes só servem para reforçar preconceitos.

Mas não olhe para o lado. Pense em quantas vezes você não fez uma proposta mais acanhada a uma profissional só porque ela era mulher. Pense em quantas vezes você duvidou da capacidade de um talento, ou o preteriu numa promoção, porque não se tratava de um homem. Pense em quantas vezes você viu isso acontecer ao seu lado, e não disse nada, nem fez nada, apenas engrossou o silêncio conivente do escritório.

Por isso tudo pergunto: que mulher brasileira nunca foi assediada?

E mais: quantas mulheres brasileiras você assediou? De quantos assédios você participou, mesmo que indiretamente? Quantas vezes você não discriminou? Quantas vezes você não solapou direitos e acrescentou obrigações na conversa simplesmente porque o interlocutor era uma mulher?

Mas não olhe para o lado. Não olhe apenas para os homens. Várias dessas perguntas eu gostaria de dirigir a você também, que é mulher. Como você tem tratado as mulheres – a começar por si mesma?

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.