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Nenhuma cidade brasileira entre as 100 mais visitadas no mundo. Por quê?

Adriano Silva

18/02/2020 10h00

 

Lembro de ter ouvido há alguns anos que de alguns países nós esperamos "eficiência" – nações produtivas. Enquanto de outros países nós esperamos "diversão" – nações prazenteiras.

Ou seja: se você for competente, espera-se de você a precisão, a pontualidade, o apuro técnico – e não o sorriso ou a simpatia. Caso dos alemães, dos japoneses, dos estadunidenses, dos povos nórdicos.

Da mesma forma: se você oferecer alegria, espera-se de você a leveza, o relaxamento, o calor humano, o lazer, a proximidade – e não a ciência de ponta, nem a excelência na gestão e na produção, nem o breakthrough artístico ou tecnológico. Caso de países mediterrâneos e de sociedades tropicais.

O Brasil sempre esteve no segundo grupo. Da gente o mundo sempre esperou o abraço ensolarado e o bom humor, e não os melhores produtos industriais nem a melhor administração de processos.

Ao mesmo tempo, muitos brasileiros, como eu, sempre sonharam com o dia em que poderíamos nos considerar pertencendo ao primeiro grupo.

Temo que o país esteja muito longe de entrar no grupo dos eficientes. Independentemente do tamanho ou do dinamismo da nossa economia, nosso modelo de sociedade está baseado em enormes ineficiências. Então, enquanto não resolvermos nossas questões estruturais, a equação pode até crescer, mas crescerá torta.

Ser um país desenvolvido não passa apenas por ter um PIB parrudo – é preciso ter sistemas que funcionem para todos (educação, saúde, transporte), instituições confiáveis (polícia, Justiça), um modelo econômico sustentável, que preserve e renove os recursos disponíveis, e que seja inclusivo, justo e gere bem-estar para todo mundo. Sem isso é mesa de pôquer e faroeste.

Ou seja: estamos longe. Deliberadamente longe. De fato, andamos para trás nesse caminho. Eu, por exemplo, já sei que não verei esse país com que sonhei e com cuja construção, dentro das minhas possibilidades, tentei contribuir.

Tínhamos, talvez, uma alternativa: organizar minimamente nossas ineficiências, já que não queremos construir no Brasil uma nação competente, para, ao menos, conseguirmos ser um país alegre e divertido.

Nosso negócio é Carnaval? Então façamos a maior festa de rua do mundo em fevereiro. Um roteiro mundial para quem curte balada e fritação. Sem roubo de celular, sem tiroteio, sem facada, sem assédio, sem ruas emporcalhadas.

Essa seria uma boa oferta ao mundo. Esse seria um excelente produto de exportação. O Brasil como um destino para quem busca o sorriso, a leveza e o relaxamento. Uma bela identidade nacional para erigirmos por aqui. Há muita demanda para isso nas sociedades eficientes – e ricas. E haverá cada vez mais dinheiro disponível ao redor do planeta para a compra de experiências com esse matiz.

O ponto é que também nesse quesito o Brasil ficou para trás. Nenhuma cidade brasileira está entre as cem mais visitadas no mundo. Istambul, na Turquia, por exemplo, recebeu 14,7 milhões de turistas em 2019. O Rio recebeu 2,3 milhões. O Brasil inteiro foi procurado por 6 milhões de visitantes no mesmo período. Um resultado pífio. Indefensável. Ridículo, considerando o potencial turístico brasileiro.

De um lado, achincalhamos nossos recursos – jogamos esgoto no mar, e lixo e veneno nos rios. Desmatamos. Tratamos a natureza ainda como um inimigo a ser vencido, ou como uma fonte inextinguível de benesses da qual podemos abusar.

O verão brasileiro, uma atração fantástica para vendermos ao mundo inteiro, conta sempre com centenas de praias impróprias para o banho. Além de enchentes tão monumentais quanto evitáveis. E deslizamentos de terra – e de casas – tão trágicos quanto previsíveis. Falta d'água. Ou água saindo turva da torneira.

Também maltratamos o patrimônio. Não conservamos bem nossas maravilhas nem facilitamos o acesso do visitante a elas. A experiência do turista no Brasil, de modo geral, é incerta e trabalhosa. Quando não abertamente perigosa.

De outro lado, nos tornamos definitivamente um país hostil, violento, inseguro. Mais: uma sociedade cada vez mais bruta, orgulhosa de sua rudeza, ciosa da sua incivilidade, enamorada da sua face mais tosca.

Procure pelo brasileiro hospitaleiro e você encontrará o cara que vê o turista como um otário a ser achacado. Do táxi do aeroporto ao arrastão na praia.

Procure pelo brasileiro cordial e você encontrará o sujeito que guarda um revólver ou facão embaixo do banco do carro e resolve uma fechada no trânsito na base da porrada e do matar-ou-morrer.

Esse traço nacional não é exatamente novo. Mas tínhamos uma certa vergonha dessa nossa ignorância, do nosso despreparo e dos nossos barbarismos. Agora boa parte dos brasileiros passou a festejar tudo isso. Esses são os ingredientes do "mito" que criamos para espelhar a nossa aridez e nossa aspereza.

O estrangeiro que vier ao Brasil buscando encontrar aquela tepidez da Ipanema de Tom e Vinícius, ou aquela tranquilidade da Itapuã de Caymmi, encontrará talvez uma praia cheia de coliformes fecais ou topará com o furto de um pertence do qual se descuidou por um átimo – quando não um assalto à mão armada.

Tenho saudade daquele Brasil que acolhia o turista – bem como levas de imigrantes – com um colo quente, ainda que maltrapilho. Nem sei se esse país de fato existiu ou se eu apenas gosto de imaginá-lo assim. Seja como for, tinha muito estrangeiro que vinha para ficar uns dias, não raro em fevereiro, e não ia embora nunca mais.

Que ninguém espere eficácia e produtividade da gente, já é ruim o suficiente. Mas quando, ao mesmo tempo, a turma passa a sentir medo de vir para cá, porque representamos ameaça e desassossego, aí ficamos mal, aí nos resta muito pouco.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.