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O que a adoração dos botafoguenses a Honda diz sobre o futebol brasileiro

Adriano Silva

08/02/2020 19h40

Linda a recepção da torcida do Botafogo ao Honda.

O que me faz pensar na ironia que é um clube da primeira divisão no Brasil, que esteve entre os melhores do mundo há 60 anos, berço de Garrincha, Didi, Nilton Santos e Zagallo, se alvoroçar dessa forma por um jogador em fim de carreira vindo de um país que aprendeu a jogar futebol há menos de 30 anos, justamente com um brasileiro – Zico, um eterno adversário do Botafogo, tão carioca quanto o clube da estrela solitária.

Há três décadas, Kazuo, o primeiro craque japonês, encerrava sua passagem de quatro anos pelo futebol brasileiro, período em que conseguiu marcar cinco gols, atuando em clubes como Matsubara, CRB e XV de Jaú.

Esse era o futebol japonês, quando surgiu para o mundo. Se hoje um jogador daquela escola, aos 33 anos, é recebido com tantas salvas no Rio, o berço anímico do futebol brasileiro, é de imaginar, olhando para a tendência das curvas nesse gráfico, que em mais 30 anos o Japão esteja na elite no futebol mundial, disputando Copas do Mundo, enquanto que o Brasil estará cada vez próximo de forças médias, como Colômbia e Portugal.

É uma grande derrota que nossos melhores jogadores, já há mais de quarenta anos, brilhem mais fora do que dentro do país. Faz muito tempo que o Brasil ocupa lugar entre a quinta e a décima maiores economias do mundo. Sendo o futebol nosso principal esporte, seria apenas proporcional e lógico que tivéssemos o maior campeonato de futebol do planeta, importando os melhores talentos, e exportando o produto acabado – vendendo caro as excursões dos nossos clubes, a transmissão dos nossos jogos, o álbum de figurinhas e as camisetas de nossos craques etc.

Temos estatura e capital para isso. Só nos falta a visão, a organização, a eficiência, o planejamento, a gestão, o denodo e, sobretudo, a boa-fé.

Exportamos barato o cacau bruto, e compramos caro o chocolate trabalhado lá fora com nosso próprio cacau. É assim com a soja, o café, tantos outros produtos.

Nos contentamos em produzir commodities. Em deixar que os outros refinem a nossa matéria-prima, e ganhem dinheiro grosso com aquilo que eles mesmos não têm, com aquilo que lhes entregamos de mão-beijada.

Aí até chocolate japonês chega aqui com status de delicatessen e vira manchete.

Não é admissível que percamos jogadores para a Turquia ou para a Ucrânia – ambientes econômicos mais acanhados que o nosso.

Não é admissível que nossos clubes não tenham os mesmos recursos e a mesma reputação de clubes italianos, franceses e espanhóis – países com economias similares à nossa.

É muita incompetência da nossa parte. E é muita desonestidade. Aquele velho pensamento extrativista, egoísta, de curtíssimo prazo, que nos define tão bem. A gente quer rapar logo, para dentro do próprio bolso, aquilo que estiver sobre a mesa. Não nos ocorre que se plantássemos e nutríssemos colheríamos muito mais. Por muito mais tempo.

De certa maneira, ainda atuamos como bárbaros, como nômades coletores, do tipo que exaure os recursos de um lugar e logo parte para achacar a próxima localidade. Então vivemos sempre da mão para a boca. Esfomeados. Quando poderíamos estar estocando comida com fartura, se aprendêssemos a cuidar melhor da própria terra.

Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem. Quanta verdade nesse verso…

Note que a CBF é uma entidade privada. Não se pode culpar o Estado ou o governo pela boçalidade histórica que trava o nosso futebol há décadas num nível muitíssimo inferior àquilo que ele poderia ser. Aqui, não dá para olhar para o lado e culpar o próximo. Temos que olhar no espelho mesmo.

Precisamos nos perguntar por que temos tantos bandidos dirigindo nosso futebol há tanto tempo. Por que nossos clubes atraem tanta gente desonesta. Por que nossas Federações estão abertas aos piores entre nós.

A CBF apenas representa o grosso do pensamento burro e a média dos atos escusos que atravessam o futebol brasileiro de cima a baixo.

Não é fácil destruir um Cruzeiro. Não é simples apequenar um Vasco. Não é trivial derrubar um Inter.

Assim como não é fácil arrasar o Estado do Rio de Janeiro, ou achatar a Petrobrás. Não é simples achincalhar a Cultura e a Educação no país, ou erodir a imagem do Brasil no exterior apoiando barbaridades óbvias como a destruição da Floresta Amazônica ou a chacina de pobres, pretos e índios.

O futebol é o maior espelho da sociedade brasileira. A grande expressão da nossa alma. O que acontece de canhestro, de tosco, de torto no país; o tanto de desfaçatez e de malvadeza que nos assola; acontece par e passo na gestão do nosso futebol.

Diria que o Brasil nunca alçará uma condição melhor como país enquanto não alcançarmos transformar nosso futebol num ambiente mais próspero, eficaz e transparente.

Nenhuma reforma dará certo no Brasil enquanto não testemunharmos uma revolução na organização do nosso futebol. Esse é o termômetro. Enquanto ele não se mexer, continuaremos febris.

Desejo a Honda toda sorte em sua passagem pelo Botafogo. Que ele seja muito feliz nessa temporada brasileira – e que faça muitos torcedores felizes. (Ele aparentemente não deu uma ligada para o Seedorf, né? Que bom.)

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.