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O Canadá é um laboratório: se Toronto der certo, a humanidade está salva

Adriano Silva

10/01/2020 11h56

O Canadá não é exatamente um país. Nem Toronto é exatamente uma cidade. Ambos são – e mais Toronto do que o Canadá – uma experiência social.

Você encontra todo tipo de gente em Toronto. Metade da população da cidade, que é de 2,9 milhões de pessoas, nasceu noutro lugar. São mais de 200 grupos étnicos e nacionalidades, falando mais de 140 línguas, convivendo em 630 quilômetros quadrados.

Só para comparar: São Paulo tem 1 521 quilômetros quadrados (área 2,4 vezes maior) e 12,1 milhões de habitantes (4,1 vezes mais gente).

Eis o que gostaria de dizer: se Toronto der certo, a humanidade também pode dar certo. Torçamos por Toronto.

Se Toronto funciona, o ideal de uma vida harmoniosa e sustentável entre os seres humanos, por mais diferentes que sejam entre si, ainda pode ser sonhado. Viva Toronto.

Toronto é uma cidade construída na imigração, como toda grande cidade mundo afora (ou, ao menos, as mais legais, as relevantes, as que interessam). E funciona como porta de entrada para um país que sempre dependeu, e ainda depende, da entrada periódica de talentos e de mão de obra estrangeira por suas fronteiras.

(Estrangeiros são só aqueles que decidem não entrar ou então aqueles que a gente decide não pôr para dentro. Todos os demais são concidadãos. Coirmãos.)

Nisso Toronto e Canadá são como Nova York e os Estados Unidos. A diferença é que Toronto e o Canadá não se esqueceram disso. Não estão negando o que sempre foram nem estão virando as costas para quem lhes construiu ao longo de décadas.

Toronto é uma cidade cosmopolita. Ser Torontonean não significa ter nascido em Toronto – mas viver, trabalhar, estudar, pagar seus impostos em Toronto. Como Nova York. E como São Paulo – a única cidade brasileira que pode se arvorar não ser provinciana.

A diferença é que Toronto, diferentemente de São Paulo, é feita para todos. As regras, os sistemas, os direitos e os deveres são desenhados para funcionar da mesma forma para qualquer um que chega e para todos os que estão dentro.

Ao contrário do modelo paulistano, e brasileiro, que acolhe levas de pessoas para em seguida discriminar grande parte delas, e segregá-las em áreas distintas da cidade – e do país, da existência –, deixando um bocado de gente sem direitos, sem acesso aos recursos básicos, à margem do melhor que a vida paulistana, e brasileira, tem a oferecer, o sistema canadense é forjado no princípio da distribuição de um padrão mínimo de dignidade entre os cidadãos.

Os modelos das casas de Toronto expõem a relativa homogeneidade social canadense. (E pouca coisa fala tanto como a Arquitetura de um lugar.) A maioria das casas, vista de frente, tem uma porta e uma janela, em estilo bay window, no andar de baixo. Um andar em cima, com os quartos, um porão e dois jardinzinhos, um à frente e outro atrás.

Outra grande quantidade de casas tem, além disso, uma segunda janela do outro lado da porta, o que dobra a fachada, e a área da casa. Na soma desses dois tipos de casa, temos, talvez, 70% das moradias de Toronto.

Há casas que dobram esse dobro. São, portanto, quatro vezes maiores que as casas menores. E há os apartamentos, alguns em condomínios modernos de 40 andares, outros em predinhos mais acanhados.

E acabou. Esse é o tanto de "desigualdade" no Canadá, ao menos no que se refere ao padrão dos domicílios. O resto é exceção. Tanto para cima quanto para baixo desse padrão. Quem tem mais do que isso tem o que não precisa. Quem tem menos não deixa de ter o necessário.

Trata-se, como se vê, de um país muito coeso em termos econômicos. Com uma grande concentração de gente na faixa central, da classe média.

Tem tanta coisa boa que decorre dessa distribuição mais igualitária de renda e de oportunidades… É o óbvio ululante quando você sai do Brasil. E é o segredo da esfinge, a caixa de pandora, a verdade sobre a qual ninguém quer falar, quando você está no Brasil.

Não se trata, obviamente, de socialismo ou comunismo ou esquerdismo, como ficou comum se dizer no Brasil, em tom de xingamento, diante de qualquer ideia de justiça e solidariedade. Mas trata-se, ao contrário, de estender os benefícios da economia de mercado, e do próprio capitalismo, a mais gente.

Ou seja: nem chega a se tratar de justiça ou solidariedade – você desenha um sistema bom para o outro porque isso, no fundo, é bom para você. Distribuir melhor os recursos, no fim das contas, não é altruísmo – é egoísmo mesmo. Só que um egoísmo inteligente. O egoísmo brasileiro não é ruim por ser egoísta – ele é ruim por ser burro.

Há um bocado de doidos em Toronto. A cidade é um pouco famosa por isso. Pelo número de "noias" e de homeless que abriga – e pelo modo relativamente humano e civilizado com que convive com esses indivíduos que, de algum modo, vivem à margem.

No entanto, mesmo em relação a esses outcasts, há um enorme respeito ao espaço do outro. Você vê gente falando sozinha, fazendo discurso inflamado, se penitenciando severamente ou amaldiçoando tudo ao redor – mas é remota a possibilidade de que aquela pessoa vá encostar em você ou invadir o seu perímetro individual.

E é remota a possibilidade de que eles venham a sofrer violência de seguranças e policiais. Eu já testemunhei cenas de tolerância explícita que um brasileiro nem consideraria possíveis.

As pessoas no Canadá não se falam muito. Não fazem muito eye contact umas com as outras. E se tocam menos ainda. O que, pasme, pode ser um negócio muito bom, em certo sentido.

Quantas vezes a liberalidade tropical do contato físico fácil não embute também uma desconsideração com o direito do próximo de não ter a sua esfera pessoal invadida?

Curiosamente, com toda essa diversidade cultural, come-se mal em Toronto, de modo geral. Provavelmente pelo atavismo britânico. Os ingleses, que primeiro colonizaram essa região, nunca foram famosos por produzirem boa comida.

A mediocridade gastronômica é provável consequência também da influência dos Estados Unidos. Há pouco mais de um ano passei uns dias vivendo a vida estadunidense. Em pouco mais de uma semana, fiquei desesperado. Muito açúcar, muito sal, muita gordura. E tudo artificial. Tudo processado. Com muito aditivo. O queijo não é queijo. O pão não é pão. Até a salada parece um construto industrial.

O Canadá abraça um tanto esses maus hábitos do vizinho com quem compartilha a fronteira mais extensa do mundo.

Esses dias estive em Québec e pude constatar, com a boca cheia, a diferença que faz a tradição francesa do lugar. A alma de Québec parece estar, de alguma maneira, mais próxima da Provença do que da Pensilvânia.

O que surpreende negativamente em Toronto?

Um: como eles emporcalham as salas de cinema. Um canadense parece incapaz de jogar lixo na rua. Dentro do cinema, no entanto, o cenário é de guerra. Parece até que fazem de propósito – o sujeito está pagando, há um time de limpeza a postos, então ele não apenas não se sente obrigado a levar coisa alguma até a lata de lixo como se permite jogar absolutamente tudo no chão.

Dois: a tal "Canadian experience", exigência para conseguir trabalho. Funciona assim: para você conseguir trabalho no Canadá você tem que ter trabalhado antes no Canadá. E nada do que você fez na vida em outro lugar conta para a maioria das posições de trabalho. Os empregadores consideram mais importante você ter trabalhado um ano como estoquista na loja de conveniência da esquina do que ter vinte anos de estrada como executivo ou em função especializada em outro país, falando outra língua.

Trata-se, claro, de um absurdo. De uma mistura de exacerbada autoestima local com preconceito em relação ao que acontece do lado de lá da fronteira. Sobretudo, há um certo receio (e preconceito) em relação aos estrangeiros ainda não bem "domesticados". O Canadá é um grande sistema que funciona. Então você tem que provar que conhece as regras e que está pronto para ser mais uma peça rodando bem na engrenagem.

A importância que eles dão à "Canadian experience" é uma demonstração de que eles dão mais valor a essa capacidade de operar pelas regras canadenses do que ao talento intrínseco ou ao potencial de contribuição de cada profissional.

E não consigo lembrar de nada além disso para desabonar a vida por aqui, nessa espécie de portfólio da humanidade.

Exceto, talvez, como bem lembrou um amigo, o fato de que é preciso pagar para encher, você mesmo, o pneu do carro no posto. E de que não há um visor para você imputar a quantidade certa de libras. É preciso calibrar no olho. Assim que descobrir como eles fazem isso, eu aviso.

 

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

Adriano Silva