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Patriotismo é uma declaração de amor que esconde um enorme discurso de ódio

Adriano Silva

12/12/2019 18h35

Patriotismo é bom.

Significa cuidar bem do que você considera seu. Ter capricho com o lugar onde você mora. Colaborar com o seu entorno para que ele sempre lhe abrace. E contribuir com o que está ao seu redor para o ambiente lhe seja sempre agradável.

Patriotismo é autoestima. Trata-se, no fundo, de se tratar bem. De ter orgulho de si, ter gosto por construir um quintal bonito, uma rua legal, uma cidade aprazível, um país bacana etc. Para você mesmo e para os outros.

Patriotismo está em não jogar lixo na calçada, em não jogar o esgoto no rio, em não atirar o sofá velho no córrego. Está nas casas de paredes bem pintadas e de jardinzinhos bem cuidados e de gramados bem aparados que você encontra ao cruzar por algumas cidadezinhas do interior gaúcho – e que você vê em quase todo lugar na Europa e em países como Canadá e Estados Unidos.

Patriotismo está em não destruir. Nem os recursos naturais do país, nem os utensílios da pracinha recém-inaugurada no seu bairro. Está em não atirar a pedra na vidraça, em não pichar o muro ou o viaduto. Está em não quebrar e deixar quebrado, em não mandar tudo para o inferno, em não contribuir para que tudo vire pocilga e ruína.

Patriotismo é uma preocupação estética. É limpar para que esteja limpo. Arrumar para que fique arrumado. E é uma atitude que privilegia o bem-estar de todos, o tal do bem comum. Organizar para que seja mais lógico e eficiente. Entregar a sua parte e contar com que o outro faça a parte dele. É confiar nos outros. E não se eximir.

Patriotismo está em cumprimentar o vizinho. Em nutrir a solidariedade e o olhar de empatia. E a justeza e o equilíbrio nas relações. Está em respeitar os demais e não se arvorar nenhum direito a mais e nenhum dever a menos do que qualquer outro cidadão.

Patriotismo está em preservar o que existe para que o patrimônio chegue inteiro às próximas gerações. E em melhorar o que você recebeu dos seus pais de modo a entregar aos seus filhos uma realidade melhor, uma possibilidade de existência mais confortável e mais feliz.

 

E patriotismo é ruim.

Patriotismo também é construir cercas. E muros. E deixar algumas pessoas dentro do seu quintal bem cuidado e isolar todos os demais indivíduos do lado de fora – e eles que se virem, que comam sal, que mastiguem areia, porque jamais serão bem-vindos no seu convívio.

Patriotismo também é hastear uma bandeira e idolatrar aquele pedaço de pano, e aquelas cores, e imaginar que aquele símbolo vale mais do que vidas humanas em outras partes do planeta, que existem sob a égide de outro pedaço de pano, de outras cores e de outros símbolos.

Patriotismo também é limitar a sua solidariedade ao seu quintal. E imaginar que esse quintal sempre foi seu. E que todos que não forem construídos à sua imagem e semelhança são potenciais invasores. Como se os seus antepassados tivessem brotado ali com a grama, por entre os pedregulhos, e não tivessem vindo, também eles, em algum momento, de algum outro lugar.

Patriotismo também é ter a alma pequena e pensar mesquinho. É considerar inimigo quem não for da sua família ou da sua cor ou da sua etnia. E acreditar que sua cultura e sua língua e seu credo são superiores aos dos outros.

E ter tanto medo de quem lhe parece diferente que a reação é se armar até os dentes e dar o primeiro tiro – de preferência no território alheio, para que a sujeira do sangue escorrendo dos corpos dos filhos mortos dos outros não fira a suscetibilidade, e não respigue na roupa imaculadamente branca, dos seus próprios filhos.

Patriotismo também é apostar na distância e no estranhamento e na incompreensão. É dividir o planeta, que é de todos, em feudos minúsculos e arbitrários. E, com esse sentimento tribal, ver a unicidade humana se transformar numa infindável e ilógica batalha de clãs. Seres humanos – sócios da vida nesse lugar – organizados em matilhas raivosas e suicidas.

Em vez de uma espécie integrada habitando esse vasto planeta de modo harmônico e horizontal, o cultivo ao ódio bestial diante do outro – seja ele o vizinho de cima, a turma da outra rua, o sujeito que torce pelo outro time. Ou as pessoas com cabelo ou formato de nariz diferente. Ou com jeitos de vestir e de namorar que lhe soam estranhos.

Armas e exércitos foram inventados para isso. Para manter os outros, vistos como adversários, sempre à distância. Arsenais e desfiles somos nós deixando claro aos vizinhos o tanto de morte e de sofrimento que podemos lhes impor.

No limite, um contingente de soldados bem treinados, ou de policiais facínoras agindo longe das nossas casas bonitas, nos permite dormir tranquilos, sonhando que estamos preparados para impor uma solução final a todos os que consideramos ameaça, na hora que bem quisermos.

O delírio, em que nos vemos cheios de armas na cintura, passa por imaginarmos que conseguiremos sobreviver, e que a vida será boa, uma vez que exterminarmos todos os que estiverem em desalinho com a nossa ordem – a qual costuma depender um bocado da imposição do caos a muitos outros.

Patriotismo é também uma ode ao uso da força bruta, à nossa capacidade de agressão. Patriotismo é também um culto à guerra. Patriotismo é uma declaração de amor que embute um tremendo discurso de ódio.

 

Há sociedades que precisam de um pouco mais de patriotismo – para construírem laços mais sólidos e sustentáveis entre seus indivíduos. Para cuidarem melhor do pedaço de chão que têm debaixo dos pés.

E há sociedades que precisam de muito menos patriotismo – para que não imaginem que chegarão a algum lugar cultivando a ignorância e o medo na relação com os outros. E a ilusão egoísta da autossuficiência. E a eletrificação de incontáveis arames e cadeiras.

De minha parte, vejo com alegria cada vez mais gente vivendo sobre o planeta e ignorando tanto as fronteiras nacionais quanto as demais barreiras entre os seres humanos, sejam elas físicas ou mentais.

Eu me incluo nesse grupo. E, assim, me sinto cada vez mais patriota – e cada vez menos conectado a um país.

Minha pátria é o planeta. Essa é a casa que eu habito e que me cabe cuidar. Meus irmãos de sangue são todos os seres humanos.

Desejo construir, pelo tempo que me resta, a multicidadania. Quero gerar riqueza e felicidade em tudo quanto é lugar, ao lado de tudo quanto é gente.

O resto é estreito demais.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

Adriano Silva