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Quanto custa viver bem em São Paulo?

Adriano Silva

28/11/2019 12h03

Imagine que você seja casado e tenha dois filhos. E que more em São Paulo e leve a vida de classe média alta pela qual tanto batalhou.

Caso já tenha quitado seu imóvel, é possível que gaste uns 2 mil reais de condomínio e mais 1 mil reais de IPTU. (Então deixemos de fora dessa conta uma possível prestação da compra da casa ou o seu respectivo aluguel.)

Para mandar seus dois filhos à escola particular, são mais 7 mil reais. (Consideremos que você não tenha nem venha a ter mais de dois filhos.)

Caso você não seja um executivo, mas um empreendedor, pequeno empresário, autônomo ou profissional liberal, e pague diretamente o plano de saúde da família, para ter acesso aos melhores hospitais da cidade você pagará 7 mil reais.

(A maioria dos médicos que você frequenta, à razão de 800 reais a consulta, na média, não são cobertos pelo plano de saúde. Então você precisa pagar à vista. O reembolso nunca será superior a 30% do valor da consulta. Mas consideremos que você tenha uma saúde de ferro e deixemos de fora da nossa conta médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas – afinal, quem precisa disso?)

Entre supermercado, padaria, quitanda, enfim, compras para a casa, você gastará uns 4 mil reais.

Se tiver carro, e ele estiver quitado, é possível que, entre gasolina, impostos, seguros, estacionamentos e pedágios, você gaste mais 1 200 reais. Com multas, esse valor pode subir um tanto. Mas consideremos que você seja um motorista exemplar. (Não estou considerando que você tenha um segundo carro, OK?)

Com TV a cabo e acesso à internet, você gastará uns 700 reais.

Com os quatro celulares, considerando o relacionamento sério que seus filhos têm com o pacote de dados 4G, você gastará mais 600 reais.

Entre luz, água e gás você gastará uns 500 reais.

Se você for sócio de um clube, são mais 1 mil reais, entre mensalidade e algum esporte que seus filhos pratiquem ou atividade física que você se permita realizar. (Se você não é sócio de clube, coloque aqui a fatura da academia para a família ou de aluguéis como a quadra de futebol Society da pelada semanal.)

Não estou considerando que você tenha empregada doméstica. Mas se você chamar uma empresa de faxinas, uma vez por semana, pagará mais 1 mil reais por mês.

Deixa eu somar isso, antes que a gente perca a conta. Deu 26 000 reais.

Esse é o custo fixo de uma família de classe média alta em São Paulo. Pode ser um pouco mais, um pouco menos, mas arredondando dá isso aí.

Sem contar os custos variáveis, também conhecidos como "a fatura do cartão de crédito". Portanto, você começa o mês devendo 26 mil reais, para manter o padrão de vida da sua família, para respirar num bairro como o Itaim-Bibi ou o Morumbi ou Pinheiros ou Higienópolis.

Isso tudo, veja, antes de comprar uma roupa ou um sapato para os seus filhos, de ir ao cinema, de tomar um chope com os amigos, de jantar fora no sábado ou chamar uma pizza no domingo à noite, de parcelar uma viagem de férias com a família, de baixar um livro no Kindle, de comprar um presente de aniversário para a sua sogra, a ração e as vacinas do cachorro ou um vinho argentino para tomar com a mulher na sexta.

Cada um sabe de si, mas é possível que essa família hipotética não vá gastar menos de 10 mil reais por mês no cartão. Então, arredondando, dá para dizer que para viver em São Paulo, com esse padrão de vida – sem privações, mas também sem extravagâncias – um núcleo de quatro pessoas precise desembolsar por volta de 40 mil reais.

Duro, não? Mas espera que a conta ainda não terminou.

Para essa família ter 40 mil reais líquidos, de forma a sustentar a sua vida entre as Marginais, considerando descontos como imposto de renda e carnê-leão, INSS e previdência privada, que mordem por volta de 30% dos rendimentos brutos, será preciso ganhar algo em torno de 57 mil reais por mês.

Eis a sentença: ou papai e mamãe ganham quase 30 paus cada um, ou a conta não fecha.

Especialmente porque o plano de saúde será reajustado em quase 20% esse ano, e a mensalidade da escola particular aumentará acima dos 10%, como tem acontecido na última década, independente de termos tido índices de inflação bem abaixo dos 5%.

(É, dizem, a tal "inflação médica". São, dizem, os "custos educacionais". E se eles dizem está certo, não há o que fazer. Ou você paga ou cai fora.)

Como resultado, os brasileiros – aqueles que podem – pagam três vezes pela saúde: uma para o governo, outra para os planos privados e uma terceira para os médicos em consultas particulares. Em educação não é diferente: pagamos para o governo, para a escola particular e depois para as escolas de inglês, as aulas de reforço, os cursinhos pré-vestibulares. Ocorre coisa semelhante na segurança, no transporte, em quase todo serviço essencial.

Esse é o nosso modelo no Brasil: em vez de resolvermos bem, juntos, de uma só vez, com todas as economias de escala que cabem dentro dessa equação, o tal do bem-comum, soluções que deveriam funcionar para todos, a gente dá uma banana para os outros e parte cada um para resolver o seu, individualmente.

A conta fica muito mais cara para aqueles que podem pagar. E para aqueles que não podem, azar. Tchau e bênção.

Surge assim mais um notável paradoxo brasileiro: na maioria dos países desenvolvidos, uma família com renda mensal de 15 mil dólares – ou 180 mil dólares anuais (ou 163 mil euros, ou 140 mil libras, ou 20 milhões de ienes) – é uma família que vive muito bem. Ainda que ela deixe 40% dos rendimentos com o governo – como acontece no Canadá –, a vida é de uma maciez e de uma previsibilidade entediantes.

Em São Paulo, com essa renda, você vive com conforto, não passa nenhuma necessidade, mas não experimenta a mesma sensação de tranquilidade financeira, ou de segurança em relação ao futuro – que em nosso país é o que diabos vai acontecer com você no próximo semestre.

Talvez no Brasil essa família hipotética possa até ser considerada "rica", especialmente no contraste com a renda média domiciliar brasileira – que foi de 1 373 reais mensais (pouco mais de 340 dólares por mês, ou 4 120 dólares anuais) em 2018. O topo da pirâmide, onde se encontra o 1% dos brasileiros mais ricos, provável lugar da nossa família hipotética, ganha 33,8 vezes mais que a base da pirâmide inteira, onde estão os 50% dos brasileiros mais pobres, segundo dado recente do IBGE. Num país cheio de miseráveis, um sujeito de classe média alta é visto como multimilionário.

Eu não sei como chegamos a isso. Eu não sei como sair dessa situação. Só sei que aí é que estamos. Se você ganha 3 mil reais numa grande capital brasileira, a vida é dura. Se você ganha 30 mil, a vida não se torna fácil e sossegada.

O Brasil, historicamente, era um país injusto porque quem tinha algum dinheiro vivia bem, e todos os demais viviam mal. Já tem um tempo que o país não funciona mais para ninguém.

 

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

Adriano Silva