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Como matar um grande amor

Adriano Silva

18/11/2019 11h50

 

Tem dois jeitos de amar.

(Mentira, tem muito mais. Deve ter. O mundo dificilmente pode ser reduzido a binômios, qualquer que seja o tema.)

Um deles é fantasiar sobre o outro.

Você cruza com alguém que chama a sua atenção. E se estiver aberto, se deixa apaixonar. É preciso um pouco de autossugestão para que essa mágica aconteça. O amor tem, às vezes, uma pitada de profecia autorrealizável – nem que seja como espoleta, para ajudar na largada. Você precisa acreditar. E precisa querer. Precisa empurrar um pouquinho. Ou aquela árvore verdejante correrá o risco de ficar na semente.

E para isso a fantasia presta um serviço importante. Diante daquela figura que de repente brilhou com uma luz diferente, que jogou uma cor inusitada no seu dia, você começa a sonhar. Um sonho bom, gostoso de ser sonhado. E carpido à luz das suas expectativas, dos seus desejos, das suas manias.

Você projeta no outro o que lhe falta, o que deseja para si, as coisas de que gosta, aquilo que você sempre quis ter. Daqui a pouco você já está fantasiando sobre como o outro é ou deveria ser – para caber na imagem que você faz dele ou dela. Ou na imagem que faz de si. No modo como faz questão de ver a si mesmo refletido na retina do outro.

Mais um pouco e você já está contando com determinado jeito de pensar do seu consorte, dando como certa determinada reação, pré-estabelecendo o modo como ele ou ela deve agir.

É o começo do fim. Você aprisionou o outro a ideia que fez dele. Na quimera – sempre doce e bem-intencionada – que construiu para enxergar, compreender e aprisionar o outro em sua vida.

Você quis salvar o outro. Consertá-lo. Aparar suas arestas. Guardá-lo na sua estante, protegê-lo no seu ninho, nutri-lo com a dieta que você inventou. Trabalhar no outro é sempre um jeito de não olhar para as suas próprias neuroses. Costurar a roupa alheia é sempre um jeito de não cerzir os buracos na sua própria vestimenta.

O relacionamento pode continuar. Pode se arrastar por anos a fio, cada vez mais para dentro da terra e para longe do sol. Mas o amor já acabou.

Outro jeito de amar é descobrir o outro.

Abrir-se de verdade para aquela pessoa que lhe tirou um pouquinho do trilho. Desvendar, camada a camada, quem é essa criatura. E conhecer mais sobre si mesmo ao compreender, pouco a pouco, o que ele ou ela tem que mexe tanto com você.

E, ao invés de tentar fazer o outro caber na sua equação pré-concebida, entender que números novos essa criatura é capaz de adicionar à sua velha matemática. E, se isso fizer sentido para os dois, ir adiante. E, enquanto isso fizer sentido, ficar. (E, sempre que isso deixar de fazer sentido, ir embora. Sem medo e sem remorso.)

Perceba que não se trata de abrir mão de si mesmo, de jogar sua identidade e seus valores no lixo, nem de entregar o leme da sua existência para o outro. Isso seria anular-se, suprimir a própria voz, deixar de ser quem você é, constranger-se para caber numa modelagem alheia. Não pode haver felicidade nisso.

Descobrir o outro é não roubar no jogo, nem nas vestes de dominatrix nem na posição de escravo. É não encarcerar – nem o outro nem a si mesmo. É abrir mão do controle – que a gente busca talvez como uma tentativa de sentir-se mais seguro, de obter alguma garantia.

(Não há garantia de nada – e tudo bem. A sensação de segurança trará mais imobilidade e tédio para a sua relação do que qualquer outra coisa.)

Descobrir o outro é deixar o jogo correr, natural e organicamente. Deixar o terreno aberto para as surpresas – as boas e as nem tanto. Aprender a celebrar as diferenças. Os encontros e os desencontros. E rir de tudo isso, sempre que possível.

É fascinante vencer o medo, soltar o barco ao vento e deixar as coisas acontecerem. E se deixar se apaixonar de verdade por uma pessoa. Como ela é – e não como você gostaria que ela fosse.

Descobrir o outro é desistir de direcionar a relação, artificialmente. É perceber que você só ficará encantado, e só encantará, se abrir espaço para o encantamento em sua vida e na sua vida com o outro. E perceber que o arrebatamento só acontece nos territórios que você não controla.

Amor não admite cabresto. Amor não é compromisso – amor é vontade, mútua e autêntica. Amor só acontece em liberdade. Amor acontece com você – você não tem o poder de fazê-lo acontecer, nem de evitá-lo, nem de mantê-lo.

E amor não precisa de aditivos. Nem permite anabolizantes. Amor é orgânico. Nasce, cresce e morre nutrido por sol, chuva, realidade – e nada mais. Amor, enfim, só subsiste na honestidade – consigo mesmo e com o outro.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

Adriano Silva