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Pensando em mudar de país? Esteja preparado para o que vai lhe acontecer

Adriano Silva

12/11/2019 17h08

Quando completei 24 anos, estava já arrumando as malas para viajar ao Japão. Estudei na Universidade de Kyoto por três anos. Era a primeira vez que eu morava fora do país.

Saí do Brasil em 1995. O mundo era um lugar enorme. E o Brasil era um país que recém começava a se reconectar com o resto do planeta. Falava com meus pais uma ou duas vezes por mês, por um ou dois minutos, em caríssimas ligações internacionais. Trocava com os amigos cartas, fitas K7 e fitas VHS, fotos impressas em papel e cartões postais – as notícias chegavam com semanas de atraso.

Agora, aos 48, volto a morar fora do país. Estou há três meses em Toronto, lançando o Draft Canada – a internacionalização do olhar do Projeto Draft sobre o universo da inovação e do empreendedorismo.

O mundo está incrivelmente pequeno. Estamos ultraconectados. Faço chamadas de vídeo com meus pais, que moram em Porto Alegre – e esses papos olho no olho nos tornaram de algum modo mais próximos do que quando eu morava em São Paulo e apenas falávamos ao telefone.

A distância não se faz sentir pelos 8 mil quilômetros (isso você resolve fácil, dormindo uma noite no avião), mas pela diferença de fusos horários, que é de uma hora (duas, agora que findou o horário de verão canadense, que o Brasil deixou de acompanhar).

Passaram-se quase 25 anos e aqui estou eu, expatriado de novo. Dessa vez, não mais como um jovem universitário que deixava quase nada para trás, que não tinha muito a perder, para quem a vida estava toda colocada à frente e a decisão de ir adiante era apenas óbvia.

Agora estou pertinho de completar 50, toco um negócio no Brasil, tenho um casamento de 20 anos e dois filhos que acabam de completar 14. Já tinha comprado a casa dos sonhos, com carro na garagem e cachorro no sofá. As decisões hoje pesam mais, porque carrego mais coisas comigo.

E exatamente porque tudo parecia me enraizar, era hora de caminhar.

Precisamente porque a estabilidade e o conforto ameaçavam me colocar na marcha lenta, era preciso acelerar.

Quando tudo parecia bem encaminhado ou resolvido, era preciso desbravar novos territórios, aprender coisas novas, deixar ar fresco entrar.

Só há um jeito de se manter jovem: continuar aprendendo, se colocando em lugares onde você nunca esteve antes, em posições que te dão frio na barriga. Se você se acomodar, envelhece. Se ficar confortável demais, murcha, perde o viço.

Enfim: só existe vida em movimento. Parou, morreu.

Então inventei essa loucura de tocar duas empresas, em estágios de maturidade distintos, em dois países diferentes, imerso em duas línguas e em duas culturas.

Em paralelo à aventura, comecei a perceber que há coisas que acontecem quando você troca de país, não importando muito as suas condições ou a sua idade no momento do salto.

Primeiro: você perde a imagem de si mesmo que costumava encontrar na retina dos outros.

E é basicamente isso o que a gente faz a vida toda – construímos o modo como queremos ser vistos pelos outros. Ou melhor: o modo como desejamos ver a nós mesmos nos olhos dos outros.

Isso é central na sua identidade, na construção da sua autoestima, para você compreender e aceitar e gostar de quem você é na vida – e é precisamente o que some. Ao deixar o seu círculo, ao sair do seu ambiente, você vira um anônimo. E, de certa maneira, um espectro.

As pessoas olham para você e não enxergam quem você é, quem você costumava ser, quem você gostaria de ser. E ao não ser mais reconhecido pelos outros, você deixa de se reconhecer um pouco também.

De tanto as pessoas olharem para você sem lhe enxergarem, você corre o risco de, um dia, diante do espelho, também se olhar sem a mesma convicção de outrora sobre quem você é de verdade.

Emigrar é um pouco zerar seu histórico, abrir mão dos créditos acumulados, começar de novo.

Para um cara encaramujado como eu, que não faz tanta questão de estar no meio das pessoas, talvez lidar com isso não seja tão complicado. (Eu carrego o autoexílio, de certa forma, para onde quer que eu vá, de modo – mais ou menos – deliberado e – quase sempre – tranquilo.)

Para um cara mais cascudo, com o meu tempo de vida, talvez essa situação não seja tão espinhosa.

Mas para os meus filhos, que tinham mais uma década de história numa mesma escola, ou para qualquer pessoa formando a sua identidade, ainda de algum modo insegura em relação às suas potencialidades, esse processo pode ser bem demandante.

Deixar para trás as primeiras amizades e os primeiros amores, no despertar da adolescência, para reconstruir todas as relações num lugar novo – ou deixar para trás um emprego, os familiares que lhe davam suporte, a cidade que você conhecia, a comida que lhe confortava –, para encarar um lugar desconhecido, com gente nova, tendo de operar em outra língua e com códigos culturais que você não domina, está longe de ser simples.

(Veja: tudo isso pode ser também, claro, bastante divertido. Mas, ainda assim, saiba: dói.)

Um segundo aspecto é uma ardência sutil, um desconforto constante, um desajuste de fundo, que não cessa, que vai crescendo devagarinho, comendo a sua paz de espírito pelas beiradas, até virar um ruído que você não consegue desligar.

De repente você se sente cansado e não sabe por quê. Se sente mais triste do que de costume, e não sabe dizer de onde vem essa nuvem negra. E bate uma insônia que você não sabe explicar.

Não estou falando de saudade, de estar homesick, da falta concreta das pessoas e das coisas de que você gostava. Não estou nem falando do nível de acolhimento ou de hostilidade do lugar para onde você emigrou. Tampouco me refiro àquela questão envolvendo identidade, reconhecimento e autoestima.

Estou falando do esforço redobrado de fazer tudo, mesmo as coisas mais simples, que sequer apareciam como "custo" em sua contabilidade anterior à mudança. Tudo é duas ou três vezes mais difícil para o newcomer – você tem que pensar mais para se expressar em outra língua, é custoso achar as palavras certas, a entonação correta. É penoso ser compreendido do jeito que gostaria, com as ênfases exatas, com as doses certas de humor ou de firmeza, de ironia ou de maciez, pelos locais.

A compreensão dos códigos em outra cultura, em todas as suas sutilezas e entrelinhas, não vem sem desgaste. (E talvez não venha nunca – na medida em que você nunca deixará de ser imigrante e jamais virará um nativo.) Há um nível de comunicação, de leitura das situações, dos modos de reagir e de se colocar, que é muito sutil, rarefeito, invisível aos olhos.

Para você que teve seu software instalado noutro ambiente, a sua capacidade traduzir, compreender e de executar bem esses elementos será sempre limitada em relação ao que podem e fazem os que nasceram ali.

Os locais não enxergam isso porque para eles tudo vem automaticamente. É algo que sempre esteve lá, como o ar que se respira. Os imigrantes também não o enxergam – embora o sintam – porque essas dessemelhanças culturais acontecem num nível subatômico, molecular.

Estou falando da linguagem corporal, dos jeitos de olhar e de sorrir, do timing para falar e para ouvir num diálogo, de quando e como sorrir ou silenciar, da compreensão das entrelinhas, do que está sendo dito sem palavras, ou por meio da própria escolha das palavras e das entonações com que elas são ditas.

Todo esse desencaixe linguístico e semiótico é fascinante quando você é um turista passando duas ou três semanas num lugar novo. Mas vira um tour de force quando você veio morar um par de anos e aquele lugar passa a ser permanente.

No limite, a questão parece ser a seguinte: um estrangeiro conseguirá um dia deixar de ser um outcomer – para pertencer de fato ao lugar onde ele decidiu viver?

Ou trocar de país é a autocondenação eterna a um limbo em que você não pertence mais ao país que deixou para trás e jamais chegará a pertencer de verdade ao país para onde veio?

A condição de se tornar um cidadão do mundo, de considerar que sua pátria é a parte do planeta onde você está, e não o rincão onde você nasceu, é uma libertação – ou uma amputação?

Por fim, percebo que, ao se mudar para um lugar, você acaba por se tornar um pouco aquele lugar. Você passa a pertencer a uma outra paragem. E essa paragem passa a lhe pertencer também.

Eu nasci em Porto Alegre. Mas sou um tanto Santa Maria. E Caçapava do Sul. Assim como sou um pouco Kyoto e Japão. Me tornei paulistano – e trago São Paulo impregnado em mim. Da mesma forma, já estou no processo de me tornar Torontonean – e de ter o Canadá também impresso em meu DNA.

Daí a tremenda importância de decidir bem os lugares onde você vai morar. Eles são contaminantes. Você não passará ileso por eles. Boas escolhas para você!

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

Adriano Silva