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Adriano Silva

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Só há uma escolha a fazer: ou você vota pela civilização ou pela barbárie

Adriano Silva

25/10/2019 18h38

Quando jovem, fui um pouco de esquerda – digo "um pouco" porque nunca estudei a filosofia de Marx e Engels, para poder bater no peito e dizer que fui de esquerda de verdade.

Minha onda era muito mais uma postura antagônica ao coronelismo que eu enxergava naquele Brasil dos anos 80, das fazendas nos rincões mais afastados do país às empresas em nossas grandes cidades. O Brasil cultivava seus atrasos – e o continua fazendo, com esmero.

Além disso, é preciso ser um tanto mal-intencionado para vestir o boné do conservadorismo num país como o Brasil, que precisa ser reformado em quase tudo. (Todo dia eu tropeço numa burocracia absurda, num processo sem sentido, em exigências esdrúxulas – e entenda bem o que estou dizendo: grande parte disso ocorre no âmbito da sacrossanta iniciativa privada.)

Ao longo da vida adulta, me tornei liberal – apaixonado pela ideia da liberdade para realizar, pelo empoderamento do indivíduo diante das instituições, pela crença de que a prosperidade vem muito mais dos ganhos de eficiência na economia do que nas firulas e rococós da política.

A experiência de ter vivido no Japão, uma sociedade em que os interesses coletivos muitas vezes esmagam os desejos individuais, contribuiu para eu projetasse um caminho em que a construção do bem-comum levasse em conta a realização pessoal dos indivíduos, e não se contrapusesse a ela.

Chego à beira dos 50 anos com uma nova convicção. Só uma coisa importa: o bem-estar humano. A discussão sobre esquerda e direita, ainda tão em voga e tão mal-resolvida entre os brasileiros, é uma distração do que é realmente essencial: a dignidade das pessoas.

Quando você, que não veste as cores de nenhum campo político em específico, ficar em dúvida sobre como se posicionar diante de um determinado assunto, lembre de olhar a questão por essa lente: como isso afeta a dignidade das pessoas envolvidas? Vote a favor ou contra a partir desse critério único.

Quando você, que se filiou a um dos territórios políticos vigentes, tiver que refletir sobre um tema qualquer, não vá correndo consultar os líderes da sua corrente política o que você deveria pensar a respeito. Não permita que decidam por você. Para responder à questão colocada à sua frente, busque pelo bem-estar humano. Onde ele está? Como garanti-lo? Como expandi-lo? Essa é a resposta certa.

Você e eu estamos aqui para experimentar felicidade. E para fazer outras pessoas felizes. Civilização é isso – construção de bem-estar coletivo, de uma sociedade em que seja bacana nascer, crescer, trabalhar, envelhecer. Civilização é um jeito de vivermos em harmonia com os demais (sejam os seus vizinhos de rua, sejam os 9 bilhões de semelhantes com quem você divide a Terra), negociando as diferenças, construindo em conjunto o bem-comum. O resto é barbárie, é cachorro devorando cachorro, é bandido dando tiro em bandido.

Não se deixe confundir pelos silogismos, pelos veja-bem, pelas relativizações capciosas. Não se deixe enganar também pelas frases de efeito, pela retórica fácil, pela ideia de que é possível gerar alguma coisa boa com gente ruim, de que más intenções podem engendrar bons resultados, ou de que dá para criar riqueza a partir da produção de miseráveis.

Ninguém precisa de um doutorado em ciência política ou de anos de palanque e de plenário para saber o que é bem-estar – trata-se de um conceito autoevidente, epidérmico, de verificação empírica e imediata. Além de ser um benefício que nós podemos – e devemos – estender aos demais seres vivos, que têm em nós a espécie que chegou mais longe na escala evolutiva.

É simples e intuitivo: tudo o que contribuir para a construção e a manutenção da dignidade dos indivíduos que habitam a Terra é bom. Tudo o que se interpuser a esse objetivo é ruim.

Para isso, não são necessários grandes devaneios intelectuais: basta olhar para dentro. Que ação ou palavra vai gerar mais felicidade? Seu coração sabe. Que caminho vai gerar menos sofrimento? Seu estômago sabe. Não tenha dúvida: esse é o passo correto a ser dado, esse é o lugar onde depositar seu apoio.

Espaço e liberdade para que os melhores entre nós realizem coisas incríveis é bom. Cuidar direito daqueles que estão no fim da fila, para que tenham lugar entre nós, para que não sejam excluídos da comunidade, para que não se transformem em perigosos mortos-vivos, também.

Desenvolvimento econômico e o uso estratégico e sustentável dos nossos recursos naturais é bom. Preservar os recursos disponíveis, para que eles não se extingam, para que sejam renovados, para que cheguem inteiros à próxima geração, também.

Ter um governo que não pese como tonelada nos ombros dos cidadãos é bom. Ter um governo que ofereça a todos os habitantes do país serviços com excelência em educação, saúde, transporte e segurança, também.

Ter uma polícia ágil, inteligente, que aja dentro da lei em sua missão de impor a lei, e que ofereça proteção à integridade física, emocional e material dos cidadãos, é bom. Estender esses serviços e essa mesma postura às famílias de todas as classes sociais, em todas as regiões da cidade e do país, também.

Viver num país em que seja seguro ter e criar filhos é bom. Viver num país em que seja possível escolher não ter filhos, e pertencer ao gênero que você quiser, e namorar quem você quiser, do jeito que você quiser, também.

Perceba como você não precisa consultar o barômetro a toda hora para checar se o gesto ou a proposição colocada à sua frente é de direita ou de esquerda, se é fascista ou comunista, se é conservadora ou progressista, antes de aplaudi-la ou de vaiá-la.

A decisão a tomar é muitas vezes óbvia e autoevidente – basta ser decente, intelectualmente honesto, agir de boa-fé, nutrir a compaixão, exercer a solidariedade. Ou, por outra, resistir a ser canalha, a ser indiferente, a ser injusto.

Não importa se você se alinha com o pensamento de esquerda ou de direita, nem se a sua resposta mais íntima está alinhada ou não com a agremiação pela qual você torce. Esquece isso. Já perdemos tempo demais com essa panaceia.

O que importa é o quanto você contribui para a geração de bem-estar humano, para a ampliação do território da dignidade, e não só para si mesmo, mas para os outros também.

O que importa é se você está do lado da civilização e da produção e compartilhamento de felicidade sobre a face da Terra. Isso é estar do lado certo. Ou se você flerta com a barbárie, e contribui para a difusão de dor, sofrimento e humilhação. Isso é estar do lado errado.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

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