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Bentoísmo. Ou a arte de viver bem sem ter mais do que você precisa

Adriano Silva

19/10/2019 13h08

 

Não espalha, mas, de modo geral, não gosto de eventos.

O problema está em mim, claro. Não sou bom de networking, não sei fazer a social. Tenho horror a soar intrusivo, inoportuno, pegajoso – por isso não uso esse tipo de oportunidade para me aproximar de alguém que não conheço e gostaria de conhecer.

Em compensação, ao deixar de fazê-lo, imagino que acabe soando esnobe, antipático ou rude. Então nem vou. (O que também contribui, possivelmente, para uma eventual imagem de afastamento, soberba e autossuficiência.)

Eis o ponto que a maioria das pessoas não percebe (ou simplesmente prefere não perdoar): ficar no seu canto muitas vezes não é uma atitude deliberada, uma provocação antissocial, mas apenas introspecção e falta de jeito. Nem sempre o cara que se isola está, com isso, levantando qualquer bandeira que não seja, de modo constrangido, a da sua própria timidez.

Outro desacerto meu com os eventos: em termos de conteúdo, é raro encontrar uma palestra que mexa comigo, que me faça rir, refletir, que me ensine alguma coisa ou me faça repensar alguma coisa que eu julgava compreender.

E aqui entre nós: ou a fala me provoca, me questiona, me pega pelo colarinho, ou então contabilizo aqueles minutos como absoluta e excruciante perda de tempo.

Tudo isso para dizer que participei do Elevate, um dos grandes eventos de inovação e de empreendedorismo do Canadá, em meados de setembro, em Toronto.

Tinha Usher, Guy Kawasaki, Martha Stewart. Mas a palestra de que mais gostei foi do Yancey Strickler, co-fundador do Kickstarter, talvez a maior plataforma de crowdfunding do mundo, lançada em 2008. (O Kickstarter inspirou outros sites de financiamento coletivo, como o Catarse, criado no Brasil em 2011. Yancey, 41 anos, foi o CEO do Kickstarter entre 2014 e 2017.)

Faço aqui um pequeno resumo pessoal do pitch de 15 minutos – todas as falas no Elevate eram bem curtas – da palestra de Yancey, intitulada This Could Be Our Future: A Manifesto for a More Generous World (algo como "Este poderia ser o nosso futuro: um manifesto por um mundo mais generoso"), mesmo nome do seu primeiro livro, que acabou de ser lançado.

Yancey teceu um cenário de deterioração do capitalismo, e da própria relação entre pessoas e empresas, enfileirando dados e sinais fracos e fortes obtidos no ambiente de negócios dos Estados Unidos.

Segundo Yancey, todo o foco hoje está no "eu" e nenhum no "nós", todas as energias estão voltadas para garantir o "agora", e nenhuma para assegurar o "futuro", e em que as empresas e o mercado se movem cada vez mais pelo que ele chamou de "maximização financeira" – ganhos de curtíssimo prazo, em relações imediatistas (ou em não-relações marcadas pelo materialismo mais árido, e pelo egoísmo mais cínico).

Em contraposição, Yancey apresentou o conceito de Bentoísmo. O bentô – as refeições japonesas, pré-montadas em bandejas compartimentadas – é regido por algumas regras. Entre elas: ter um pouco de tudo, sem ter nada em excesso, e oferecer uma dieta variada e colorida, numa experiência gastronômica harmônica e frugal.

O bentô é concebido para que você satisfaça 80% da sua fome, deixando espaço para que o apetite cresça até a próxima refeição, sem permitir que você ingira mais do que precisa, de modo compulsivo, prejudicando a si mesmo e ao seu entorno.

Um conceito bacana, que vale para a vida e para os negócios. E que fala de equilíbrio, de respeito aos recursos disponíveis, de consciência de si mesmo e das contribuições que você precisa fazer à realidade em que está inserido.

No limite, o Bentoísmo também tem a ver com eficiência. Yancey clama por um mundo mais generoso. Mas poderíamos pensar, a partir da mesma proposta, num mundo mais eficiente na gestão dos insumos que tomamos de um lado, para nossa sobrevivência e bem-estar, e que despejamos do outro, na forma de rejeitos.

O raciocínio vale para empresas e para pessoas. E não só para o consumo, mas também para os investimentos, para a gestão dos negócios e para a administração das relações. Trata-se de um chamado por mais sustentabilidade nas atividades econômicas e no relacionamento entre os indivíduos. Trata-se de não tomar do outro mais do que aquilo que for justo – seja o outro funcionário, patrão, cliente, fornecedor, membro da sua família. (Podemos incluir aqui os demais seres vivos, animais e vegetais, que compartilham da vida conosco nesse planeta. Ou, se quisermos, a própria Terra e seus recursos minerais e energéticos finitos.)

Estamos falando em devolver aos demais as benesses que nos foram proporcionadas por eles. Afinal, se acumular significa tomar do mundo mais do que você entrega de volta ao mundo, então acumular é um problema.

Tem-se falado muito sobre a pegada zero de carbono, que pode ser definida como a nossa obrigação de produzir uma quantidade de oxigênio equivalente ao gás carbônico que emitimos. Mas também podemos falar na nossa pegada zero na produção de lixo, no consumo de energia, na geração de filhos.

Essa ideia pode ser estendida ainda aos alimentos que você come, às roupas que você usa ou ao tempo que você demanda dos outros para questões que são suas. E mais: que tal zerar sua pegada na relação com as mulheres, com os negros, com os homossexuais, com os velhos?

Faça essa conta: no último ano você gerou nos outros mais sorrisos do que desgostos, causou aos demais mais alegrias do que incômodos?

Zerar o seu impacto no planeta é quase como zerar seu carma. Ao morrer, não leve dívidas com as gerações futuras. Saia da vida tendo produzido um legado positivo que seja no mínimo equivalente aos recursos que você consumiu em sua passagem por aqui.

Esse jeito de pensar tem a ver comigo. Desde criança, a partir de uma criação algo estoica, de uma vida doméstica austera em termos materiais, com motivações tanto ecológicas quanto anticapitalistas, tenho como um mote pessoal não desperdiçar nada.

Quando tinha pouco, tirar o máximo dos recursos disponíveis, não jogar fora aquilo que pudesse ser ainda utilizado, era questão de sobrevivência – individual, familiar. Já há algum tempo, tenho mais do que preciso. Mas continuei agindo do mesmo jeito. Por uma questão de sobrevivência – talvez coletiva, geracional.

Eis a minha ética particular, que cedo na vida era apenas um sentimento, e que com os anos se tornou um parâmetro para a tomada de decisões: em tese, nenhum de nós deveria fazer qualquer coisa que fosse insustentável se todos decidíssemos fazê-la também.

Ou: se você toma atitudes e faz escolhas que, se fossem empreendidas pelos demais, implodiriam o sistema, isso é um problema. Você está se dando um direito que não deveria ser só seu.

Não é fácil viver por esse axioma. Mas é preciso ter claro que toda vez que agimos fora dessa regra estamos sobrecarregando as engrenagens que estão postas e gerando privilégios, de um lado, e escassez, de outro. (E desse outro lado, sofrendo com a falta causada pelos excessos que você se permitiu, estarão seus filhos e netos daqui a alguns anos.)

Por isso o Bentoísmo fez tanto sentido para mim. Sou, de certo modo, um bentoísta avant la lettre, desde pequeninho. Obrigado, Yancey. Lerei seu livro.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

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