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Adriano Silva

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Se você pode trabalhar de qualquer lugar, por que não sair e ver o mundo?

Adriano Silva

28/09/2019 16h22

Tem um modelo de vida que é assim: você cria objetivos materiais cedo em sua jornada, num modelo de aquisição e acumulação, e é formado para trabalhar a sua existência inteira correndo atrás desses objetivos.

Imagino que esse modelo tenha surgido com o próprio capitalismo. Antes, o mundo era muito mais claramente dividido em dois grupos estanques: de um lado, os senhores feudais, que detinham a terra, o modo de produção reinante, um recurso evidentemente finito. Esses tinham tudo.

De outro, todos os demais, vassalos, que viviam em torno daquela riqueza (ou sobre ela, forçosamente), que tinha dono e cuja única mobilidade possível era ser passada adiante aos herdeiros. Esses não tinham nada.

Com o surgimento da burguesia, e a fundação de uma classe média urbana, e com o desenvolvimento de outros modos de produção, a possibilidade de possuir coisas passou a valer para um número maior de pessoas.

Em seguida, a partir do século 18, com a Revolução Industrial, essa promessa foi sendo alargada para mais gente. À medida que a classe média urbana ia se tornando uma camada mais ampla da sociedade, a ponto de, já no século 20, com a emergência do capitalismo moderno, se tornar uma aspiração possível à maior parte da população, a ideia de adquirir propriedades e de acumular bens se tornou uma cenoura em forma de cifrão colocada à frente de quase todo mundo – do sujeito que paga as prestações de uma casinha na Cohab ao sujeito que compra um iate de 40 pés para passear com a família.

A Nova Economia tem questionado um pouco esse paradigma. De um lado, há a ideia – poderosa – de que podemos abrir mão de ter coisas, sem prejuízo de fazermos uso das coisas.

Por que termos escritórios particulares se podemos compartilhar espaços de trabalho, de modo mais barato e, talvez, mais inspirador? Por que cada um tem de ter um carro (às vezes mais de um), se podemos lançar mão de um automóvel somente quando precisarmos dele, pagando somente pelo uso efetivo que fizermos dele, em frotas compartilhadas (com ou sem motorista no pacote)?

De outro lado, há a ideia – igualmente poderosa – do nomadismo digital. O mundo virou um lugar pequeno. Não apenas porque estamos ultraconectados e podemos ter uma conversa virtual, olho no olho, com qualquer pessoa do mundo a qualquer hora, a partir de praticamente qualquer lugar, mas também porque podemos nos deslocar pelo globo, fisicamente, com uma facilidade que jamais existiu.

Tenho 48 anos e até hoje vivi pela lógica do mainstream: estudei, trabalhei, casei, tive filhos, construí um ninho e fui estocando coisas dentro. Pares de tênis, camisetas, livros (antes de começar a comprar livros digitais, passei 30 anos comprando livros físicos, muito mais do que consegui ler), fotografias (sim, ainda tenho muitas memórias impressas em papel), trabalhos escolares e demais ensaios artísticos e literários das crianças, pequenos e grandes objetos de valor sentimental que fui juntando vida afora.

Com tudo isso dentro de uma casa própria, sem contar o cachorro, a lógica tem sido: esse é o meu castelo, daqui não saio, daqui ninguém me tira. Era isso que eu buscava: sofá confortável e despensa cheia. Um sedentarismo abastado, construído ao longo de uma vida de trabalho duro.

Pois bem. Estou considerando mudar um pouco essa lógica. Que tal desmobilizar os ativos? No meu caso, só um apartamento e um carro. (O segundo carro da família, que era meu, já vendi há quase dois anos. Muita gente na minha idade tem outras raízes bem presas no chão: casa na praia, sítio, escritório etc.)

Ao desempatar seu patrimônio, e transformá-lo em recurso financeiro bem investido, com boa liquidez, você estará livre para voar para onde quiser – e com um colchão que lhe permita dormir com alguma tranquilidade. Mesmo quase aos 50 anos. (Ou exatamente porque você já está ficando velho e não há mais tempo para ficar sonhando – é hora de começar a realizar os sonhos.)

E se podemos, na maioria dos casos, trabalhar de qualquer lugar, e a qualquer hora, sem prejuízo da qualidade das entregas, que tal morar um período fora do país, conhecer outras culturas, aprender outras línguas, respirar outros ares, provar outros sabores?

Quando viajei ao Japão, em 1995, para estudar três anos na Universidade de Kyoto, o mundo era enorme. Você tomava um avião para o outro lado do planeta e é como se estivesse entrando em um buraco negro: a única conexão possível era o telefone – eu falava alguns minutos com a família uma vez por mês, porque a ligação era caríssima.

Bem, havia também as cartas, que a gente no mais das vezes escrevia à mão, e os cartões postais, para os práticos e sucintos. Meu sogro gravava algumas partidas do meu time em fitas VHS e me enviava por Correio – eu assistia aos jogos do Inter com um mês de atraso. As notícias também eram esparsas – a Internet estava apenas começando e era preciso esperar muitos dias até um jornal ou revista chegar, já defasado, para você ter uma ideia do que estava acontecendo no país.

Isso, como é evidente, mudou muito. Estar no Morumbi, ou em La Barceloneta, ou em Shinjuku, não altera muito, para quase ninguém, a capacidade de manter as relações pessoais e comerciais em dia, de levar adiante as amizades e os negócios, de conversar com gente querida ou de vender e entregar a seus clientes aquilo que você vendeu, onde quer que você esteja.

Então, se a geocalização se tornou irrelevante, por que não exercer a sua mobilidade? Por que não assumir um endereço itinerante? Por que não adotar o nomadismo digital?

Trabalho há anos com um designer, o Fabricio Moura, sem nunca saber direito em que lugar do mundo ele está – além de designer, ele tem um blog de viagens. Fabricio, mesmo trabalhando de Istambul ou de Bangkok, nunca atrasou uma entrega. (Ou, ao menos, o fato de ele estar em outro continente, e não em seu home office em Pinheiros, nunca alterou essa equação.) Muitas vezes a diferença de fuso, ou 12 horas dentro de um avião, ajudaram – a gente enviava pedidos no fim do dia no Brasil e o job estava pronto em nossas caixas de entrada na manhã seguinte.

Eis o ponto: se a sua empresa é o seu computador, e se a sua força de trabalho está com você onde você estiver, e se a tecnologia nos permite estar a um toque numa tela ou numa tecla de qualquer outra pessoa no planeta, por que não se programar para viver uma temporada num dos seus lugares preferidos no mundo, seja Paris, Roma, Ushuaia ou Morro de São Paulo? Por que não morar na Gold Coast australiana ou num vinhedo da Califórnia ou no Soho londrino antes de morrer?

A vida é uma só. Vivê-la todinha amarrado a uma árvore no quintal, ou expandir seu território para um raio de 20 000 quilômetros, é uma escolha sua.

O problema de adotar esse estilo de vida frontalmente? Você precisa caber dentro de três ou quatro malas. Trata-se de um outro jeito de pensar suas roupas e sapatos e quadros e livros (você tem coragem de se desfazer daquela biblioteca que curou antes do Kindle?), sem falar naquela máquina de escrever antiga e nos helmets de Star Wars. (Quem vem de um modelo de acumulação, mesmo deixando toda a mobília para trás, pode se deparar com mais de 50 caixas de "objetos pessoais", pesando mais de uma tonelada…)

Por fim, outra disrupção dura de empreender nesse modelo, especialmente para quem está entrando na casa dos 50: se de um lado você está prestes a ver seus filhos saírem de casa, para trilharem seus caminhos, e se isso o liberta para uma vida mais leve e nômade, e se é superbacana a perspectiva de ampliar o seu plano de voo vida afora, em vez de começar a descer seu avião para pouso, como tantos contemporâneos seus, por outro lado isso significa que você não estará fisicamente próximo para acompanhar as conquistas dos seus filhos – e nem para receber seus netos em casa quando os pais deles saírem para jantar, ou nos fartos almoços de domingo que você sonha oferecer. Porque a sua casa voadora tem grandes chances de não estar localizada na mesma cidade em que eles vivem.

(Em compensação, nas férias eles terão lugares incríveis para ir, e você terá histórias incríveis para contar…)

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.

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