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Adriano Silva

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Você está passando rapidamente pela vida. (Aproveite bem o seu dia.)

Adriano Silva

31/08/2019 12h15

Tempo, tempo, tempo.

Não posso reclamar. O tempo tem me trazido muitas coisas boas, tem me ajudado, tem me feito melhor.

Sinto saudade das coisas que vivi, me doem as pessoas e as coisas que passaram pela minha vida para não mais voltar. (Mesmo que você reencontre aquelas pessoas e aquelas coisas, elas não serão mais o que foram, nem você será o mesmo. Os momentos vividos são irreproduzíveis. Acontecem uma vez e pronto. A mágica não se repete. Então não se esqueça de aproveitá-los bem.)

Mas não tenho vontade de voltar para nenhum momento pretérito. Não trocaria a vida que levo hoje por nenhuma outra. Estou satisfeito com meu presente, serenado em relação às coisas como elas se me apresentam hoje.

Não tenho qualquer angústia pelo que não fiz. Fiz tudo que desejei. Segui meu nariz. (OK, talvez eu pudesse ter convidado aquela menina para dançar, ou tentado aquele beijo, em vez de ficar paralisado.)

Talvez o melhor fosse dizer: fiz tudo o que pude. Não me devo quase nada. Está tudo certo.

No entanto, o tempo é veloz e é voraz. Está passando rápido demais. Mais da metade da areia em minha ampulheta já se foi. E o resto não para de cair.

No fundo, sou eu passando pelo tempo. Atravessando a vida, que é muito curta, muito rapidamente.

Alguns marcadores já vão deixando claro que estou deixando o centro do sistema solar e me afastando, indo para a periferia da galáxia, num voo sem retorno, em direção ao oblívio.

Tome a saga cinematográfica dos Vingadores, por exemplo.

Uma versão maravilhosa do universo que conheci nos quadrinhos, há quarenta anos. Os quadrinhos não existem mais. Ao menos, não daquele jeito que conheci, não naquele universo que me formou. Os artistas e seus traços, as grandes sagas que corriam horizontalmente nas páginas, e que precisávamos esperar a edição do mês seguinte para seguir acompanhando. (Esse era um tempo de espera normal. Não havia o conceito de maratona, de assistir a todos os capítulos de uma só vez.) Aquele ambiente onírico trazido pela arte sequencial, pelo cheiro da tinta no papel, acabou.

Então, para mim, a série de filmes Avengers, que começou em 2012, é um fenômeno recente, considerando o meu ponto de vista de garoto que lia as histórias desses heróis nos gibis do começo dos anos 80.

E, veja, sete anos depois, a versão dos Vingadores para a tela grande também já está se encerrando.

Por trás do ciclo dos quadrinhos, havia os artistas e roteiristas, que envelheciam e se aposentavam. (E as editoras, que podiam falir ou cancelar publicações – Abril, Bloch, Ebal, RGE, Vecchi.)

Por trás dos filmes, da mesma forma, há os atores – que também envelhecem, e perdem as condições de sustentar seus personagens imortais e superpoderosos com seus rostos e corpos apenas humanos.

Hugh Jackman há muito não consegue mais ser Wolverine. Desde o lançamento dos X-Men, em 2000, ou de Homem Aranha, em 2002, duas gerações de atores já deixaram de poder encarnar seus personagens. Chris Hemsworth já declarou que não aguenta mais encarar a preparação física exigida para se transformar em Thor. Robert Downey Jr. deve muito a Tony Stark – mas ele já devota longos 11 anos de sua carreira ao Homem de Ferro.

Um ciclo fabuloso chega ao fim. Mais um. E ele já era a reinvenção digital de um ciclo anterior, igualmente fabuloso, feito na ponta do lápis, com arte-final em nanquim.

Este ano tem outro ponto final numa saga maior do que o mundo e maior do que a vida: Star Wars.

Quando a primeira trilogia terminou, em 1983, ela tinha, em meia década, criado um universo espetacular, mítico, uma das maiores fantasias da história do cinema e de todo o mundo pop. Aquela mitologia avassalou a minha geração.

Quando a segunda trilogia foi lançada, em 1999, a gente, bem, ficou esperando pela terceira.

E quando o episódio VII chegou às telas, em 2015, a obra-prima de J.J. Abrams nos fez sonhar e suspirar de novo. Com o mesmo ganho fantástico, para um cara de quase 50 anos como eu, trazido pelos grandes filmes da Marvel: a possibilidade de reviver, ao lado dos meus filhos, numa sala de cinema, o encantamento que tive quando criança. Voltar a ser um teenager ao lado deles, com sabre de luz numa mão ou empunhando um martelo ou um escudo na outra.

É claro que haverá uma nova fase no Universo Marvel. Assim como é possível que venham a lançar uma nova trilogia de Star Wars. Nada que me tire do coração esse aperto. É como se estivéssemos numa linda festa, em celebração a uma outra festa incrível que experimentamos lá atrás – e como se esse revival também já estivesse chegando ao fim.

Tudo passa. Tudo acaba. Tudo vira passado. Tudo vira saudade.

Inclusive nós mesmos, cada um de nós.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft e do Draft Canada. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.