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Adriano Silva

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Brasil: de país do futuro a país que não deu certo. Como chegamos até aqui?

Adriano Silva

27/07/2019 11h44

Na minha infância profunda, nos anos 70, o Brasil vivia sob uma ditadura. Foi isso que vi quando abri os olhos para a vida pela primeira vez. Um país fechado, periférico, arcaico, autoritário.

Crianças uniformizadas desfilavam em ordem unida nas paradas militares de 7 de setembro. Não havia mais medo explícito nas ruas do país – o momento já era de distensão, a chamada "abertura lenta, gradual e segura" – mas havia enormes silêncios dentro das casas e das salas de aula.

O Brasil era uma família patriarcal, comandada por homens brancos, velhos, conservadores e prepotentes.Era natural ver os negros como uma sub-raça. E as mulheres, como um sub-gênero. Os gays, quando saíam da invisibilidade, eram motivo de riso e de escárnio.

Para boa parte da sociedade civil, o único jeito possível de resistir era fazer o papel dos adolescentes da casa – revoltados, travados, reprimidos, ressentidos.

A todas essas, havia um pacto entre a intelligensia nacional – todos os nossos problemas estavam concentrados no Regime. Era simples pensar o Brasil: de um lado, os militares, que nos subjugavam; de outro, a sociedade brasileira, que ansiava por liberdade.

Eles eram o nosso inferno, nós éramos a nossa própria redenção – bastava conquistarmos de novo o direito de exercê-la. Eles eram os algozes, nós éramos as vítimas. Quando virássemos esse jogo, tudo se resolveria a nosso favor. Havia um Brasil horrendo em curso, que estava na "situação", e um Brasil lindo, que estava na "oposição", esperando pelo momento de desabrochar. E a passagem de um para o outro seria automática, tão logo reinstalássemos a democracia por aqui.

Todo mundo que não fosse de direita, da Arena, a favor dos milicos, era democrata, de "esquerda", formando um bloco uníssono, bem intencionado, de gente marchando do lado certo da História, que girava em torno do MDB e que sonhava com um país mais justo e mais aberto. De um lado, no poder, gente torpe, que queria um país para poucos. De outro, aqui embaixo, pessoas decentes, que queriam um país para todos.

O conforto dessa visão começou a ruir com a chegada dos anos 80. A abertura se esgarçou, as eleições para cargos majoritários voltaram, a democracia foi se estabelecendo e vimos que não havia só um inimigo. Que o buraco era mais embaixo. Que havia muitos buracos. E que, entre nós, havia também gato de toda pelagem.

O cenário se tornou mais complexo. Não haveria solução fácil para a construção de um país melhor. Democracia era um meio, não era um fim. Liberdades individuais e direitos civis eram ingredientes, não garantiam o sucesso do prato – que precisaríamos suar muito para preparar.

Depois dos militares, os primeiros líderes civis ainda eram aqueles velhos conservadores alinhados com o Ancien Régime. Um Brasil quadrado, retrógrado, oligárquico – esse mesmo que Bolsonaro está empenhado em ressuscitar.

Nos anos 90, tivemos a primeira mudança importante em 100 anos de República. Depois de um século dirigido por marechais, senhores feudais, industriais e caudilhos, o país era finalmente assumido pela classe média urbana e instruída, com a eleição de Fernando Henrique Cardoso.

Houve um choque liberal, com abertura de mercado, modernização econômica em uma série de setores, reconexão do Brasil ao mundo e estabilização da moeda, com o fim da hiperinflação.

O Brasil melhorou, especialmente no primeiro governo FHC, e nós voltamos a ter esperança e autoestima.

Em seguida, na virada para os anos 2000, tivemos outra mudança importante. Pela primeira vez, um operário assumia o comando do país. A classe trabalhadora teria a chance de administrar o Brasil. Depois dos oligarcas e depois da elite intelectual, o brasileiro comum chegava lá. Teríamos um presidente vindo efetivamente do povo, com cara, jeito e fala que espelhavam a maioria da população brasileira.

E o Brasil melhorou, especialmente no segundo governo Lula, quando acreditamos, de modo quase eufórico, que estávamos nos tornando um país do primeiro escalão, respeitado pelas outras nações e que atraía a atenção de investidores e talentos mundo afora.

Esse arco explica muito do atual desencanto com o país. Quando estivemos sob os coturnos, acreditamos que tudo se resolveria com a volta da democracia. Quando estivemos sob o comando de oligarcas, havia a esperança de que tudo se resolvesse com a chegada ao poder da classe média urbana, com os melhores quadros que tínhamos conseguido produzir nas universidades e no ambiente corporativo. Quando estivemos sob a administração dessa elite intelectual e profissional, havia a esperança de que a redenção viria quando o povo assumisse o país, quando os trabalhadores chegassem ao poder.

Com a ruína e a desmoralização do PT, e com a evaporação do PSDB (ou sua transformação numa terra de ninguém), ficamos com a sensação de que gastamos todas as nossas fichas, de que tentamos de tudo, de que o Brasil simplesmente não deu certo. O sentimento é o de que testamos todas as alternativas disponíveis e de que não há mais esperança.

Bolsonaro é filho dessa desesperança. Ele representa, para boa parte dos brasileiros, uma medida desesperada (que quase sempre é também desastrosa) de quem não se sabe mais o que fazer, de quem deixou de acreditar e aperta o botão de autodestruição da nave.

Bolsonaro, para metade das pessoas que o elegeram, é uma negative option. É um voto de repúdio. (Essas pessoas somente agora estão começando a se dar conta dos vários "sim", hediondos, que estavam sendo dados juntos com aquele "não". E dos vários "aceites", trágicos, que estavam sendo outorgados junto com aquele "repúdio".)

Eis o momento que vivemos no Brasil. Uma convicção sombria de que ainda vai demorar muito tempo até que o país deixe de ser uma enorme impossibilidade. Um mau investimento. Uma esperança vã. Um sonho que se transforma muito rapidamente em pesadelo. Um lugar que tinha tudo para ser delicioso, mas cujo gosto é sempre amargo.

Vivemos dias de desalento. Em que somos confrontados com nossa própria impotência – como indivíduos para gerar melhores condições de vida para nós mesmos e para nossos filhos. E com a nossa profunda incompetência – como sociedade – de construir uma nação.

Pesa sobre nós a ideia de que somos incapazes de enxergar, atacar e resolver nossos problemas fundamentais. Ou de que simplesmente não estamos a fim, de verdade, de resolver coisa alguma.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.