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Adriano Silva

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Como você lida com os fins de ciclo em sua vida?

Adriano Silva

28/06/2019 09h54

 

Eu não gosto do fim das coisas.

Eu me apego às pessoas, aos lugares.

Eu sinto saudade das situações, de tudo o que vivi.

(Depois que as coisas passam, e tudo fica resolvido, para o bem ou para o mal, cessa a ansiedade da incerteza, acaba a angústia do porvir, serenam as pressões do presente, de tudo que temos que resolver hoje – por isso o passado é um colo tão acolhedor, em que até os eventos pretéritos ruins parecem mais macios do que os eventos atuais, por mais promissores que eles sejam. Por isso a nostalgia é um bálsamo, um convite a atravessar a vida olhando para nós mesmos de modo arrastado pelo retrovisor – e, por isso mesmo, ela é um monstro com o poder de nos aprisionar para sempre no fundo do lago escuro da melancolia.)

No entanto, paradoxalmente, não me deixo paralisar por essa tendência ao apego. Fico sempre desejando o para sempre, fico sempre querendo congelar as coisas ao redor em fotografias que as eternizem – para que não acabem, para que não envelheçam, para que não me deixem. Mas nada disso jamais me impediu de ir adiante, de caminhar com ímpeto vida afora.

"Vamos fugir
Pra outro lugar, baby
Vamos fugir
Pra onde quer que você vá
Que você me carregue"

Imaginem quão sofrida tem sido essa combinação: sou um inovador saudosista, um tomador de risco conservador, um cara que sempre acelerou na curva, mas que no fundo sempre fantasiou com o conforto (imobilizador, castrador) de ver a vida passar sentado ao lado de um fogão à lenha, numa grota pitoresca qualquer do mundo. Eu tenho esses dois caras dentro de mim: o realizador e o acomodado; de um lado, um desejo de protagonismo, de outro, um desejo de anonimato.

Mais: adoro o clima de fim de ciclo. Sei que vou morrer de saudade do que está ficando para trás, mas não hesito um segundo sequer em colocar o ponto final em processos que já estão chegando ao fim, em projetos que já deram o que tinham que dar. (Racionalmente, sei que as coisas ficariam para trás do mesmo jeito, mesmo que eu decidisse não seguir em frente. Mas me separar delas, vê-las indo embora para não mais voltar, me dói do mesmo jeito.)

O fim do ciclo – de um relacionamento, de uma sociedade, de um emprego, da sua passagem por uma cidade ou país – tem um lado intimista, de repassar o que você viveu ali, limpar as gavetas (real e metaforicamente), dar baixa naquilo que você não vai levar adiante, aplainar algumas pontas soltas, para não deixar nada mal resolvido, guardar corretamente, nos lugares certos, aquilo que você escolheu carregar consigo.

"Você tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero é ir embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo"

Há boas surpresas nesse processo: há metas que você valorizava muito, e que não tinham tanto valor assim. Há coisas que você subestimava e que se mostraram muito importantes. Há obras que você não se julgava capaz de construir – e que você botou de pé. Há pessoas que pareciam para sempre e que não duraram mais de quinze minutos.

Mas há também uma brisa de pura felicidade soprando na troca de ciclo. Uma contaminação pela alegria intrínseca a toda renovação. Um sentimento quase eufórico que vem da oportunidade de começar de novo, de se reinventar, de desenhar uma nova vida. As novas perspectivas do que vem a seguir já lhe acenam, sorrindo, e a sensação que advém dessa troca de pele é muito boa. É rejuvenescedora.

Algo, talvez, como renovar o guardarroupa: há roupas que você adora, das quais será penoso se despedir – um sofrimento amplamente superado pelo encanto e pela felicidade de experimentar roupas novas, mais afeitas a quem você quer ser hoje, e não a quem você foi ontem.

Talvez seja por isso que um cara como eu, que sofre tanto com as mudanças que a vida traz (toda mudança implica perda e finitude), busque tanto a mudança ao longo da vida. Mudar é renascer. Se permanecer significa, muitas vezes, desistir, acomodar-se, perecer em vida; manter-se em movimento, seguir caminhando, significa que você continua buscando, que você ainda ousa querer mais, que você ainda está vivo – de verdade.

 

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Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.