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Adriano Silva

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Afinal, o que significa ser de "direita"?

Adriano Silva

2015-05-20T19:09:32

15/05/2019 09h32

O convite que lhe faço hoje é mergulharmos nessa questão: afinal, o que é ser de "direita"?

A direita aflorou no Brasil nos últimos anos, saiu do porão, tomou o poder, está na ofensiva por aqui – e mundo afora também. E como as palavras têm poder, precisamos entender o que elas significam. Em todas as nuanças possíveis, de modo a utilizá-las – e compreendê-las – corretamente, antes de sairmos por aí batendo no próprio peito (ou na cara dos outros) dizendo que somos isso ou aquilo.

Direita costumava significar capitalismo. O direito do indivíduo de construir seu próprio enriquecimento. De ganhar e acumular poder aquisitivo. E a liberdade para fazer o que bem entender com a própria vida, sem um planejamento externo, com a menor ingerência possível de uma autoridade superior.

Se você acreditava que cada um tem que cuidar de si, e fazer por onde, do seu jeito, a partir de suas próprias escolhas, desafiando a ordem vigente e as condições dadas, e se você achava que o esforço individual é a melhor forma de gerar e distribuir riqueza em sociedade, e que esse esforço deve ser estimulado e bem recompensado, então você era capitalista.

À direita estava o liberalismo. Um conjunto de preceitos que apostava na geração de bem-estar mais pela via da aceleração econômica do que pela via da organização política. E que estava baseado em ideias como: Estado pequeno, provendo os serviços públicos essenciais, como uma espécie de zelador do condomínio. Governo agindo mais como juiz da partida do que como um dos jogadores. Economia aberta, mercado livre, regulado pela competição entre empresas privadas. Justiça ágil e independente, solucionando rapidamente os conflitos entre os jogadores. E, principalmente, foco no indivíduo, com mais liberdades e mais responsabilidades transferidas do âmbito público para o privado, e da esfera institucional para o dia a dia das pessoas físicas e jurídicas.

Direita brasileira, coronelismo e tradição patrimonialista

Aqui no Brasil, direita também significava coronelismo, descaso dos mais abastados com a coletividade que os circundava e sustentava. Ser de direita, por aqui, era apostar na desigualdade social como meio de eternizar privilégios. E pertencer ou apoiar uma elite que jamais soube, ou quis, entender o que é a noblesse obligue – a "nobre obrigação" da classe dirigente em relação a seus dirigidos.

A direita no Brasil nunca acreditou na meritocracia, no mercado aberto e na livre competição. Assim como nunca desejou uma Justiça independente. Na mão inversa, a direita brasileira sempre buscou minimizar a concorrência no mercado interno, e sempre procurou contar com uma Justiça devotada à conservação de suas prerrogativas de classe.

Nossa direita nunca acreditou no enriquecimento por meio do trabalho duro, do talento individual, do desenvolvimento de diferenciais competitivos. Ao contrário: ela sempre operou pela manutenção de vantagens imorais, muitas vezes ilegais, obtidas por meio da concentração oligárquica da renda e do poder – e da apropriação injusta, quando não indébita, pela classe dominante, da riqueza que deveria ser de todos.

Eis a nossa tradição patrimonialista – que vem dos primórdios, ainda nas primeiras décadas da história do Brasil, com o loteamento do país em capitanias hereditárias entregues a nobres portugueses. Essa tradição cartorial, feudalista, de distribuição dos meios de produção, para usufruto vitalício, entre os amigos do rei – que depois passam de pai para filho a posse de terras, indústrias e gentes –, ainda subsiste entre nós.

No Brasil, a direita nunca operou pela redução do Estado. Ao contrário, nossos capitalistas sempre dependeram do Estado grande. Para nossa classe dirigente, quanto maior for o erário, mais ganhos ela pode obter ao operar seu fisiologismo, mais vantagens privadas ela terá a partir da espoliação que lograr fazer dos bens públicos.

A relação da nossa direita com o país sempre foi extrativista, bulionista, de rapinagem. O Estado no Brasil é uma engrenagem que suga, com poder de autoridade, a riqueza da sociedade, em especial às custas dos mais pobres – mas nossa direita não vê isso como um problema, e sim como uma oportunidade, porque dessa enorme algibeira compulsória e confusa é mais fácil drenar para seus próprios bolsos os recursos que deveriam beneficiar a todos. O projeto da direita por aqui não é reformar o Estado – mas ocupá-lo, controlá-lo, e obter por meio dele o máximo de ganhos pessoais, econômicos e políticos.

Direita costumava significar capitalismo. O direito do indivíduo de construir seu próprio enriquecimento. De ganhar e acumular poder aquisitivo. E a liberdade para fazer o que bem entender com a própria vida, sem um planejamento externo, com a menor ingerência possível de uma autoridade superior.

Estado vs Mercado

Para a direita clássica, governo é custo, na medida em que ele não gera riqueza – quem gera riqueza é a sociedade. O governo é um síndico que o edifício precisa ter – para cuidar das áreas comuns, para impor as decisões apuradas em assembleia, para zelar pelos interesses de todos os condôminos.

Essa é a visão liberal do Estado – um administrador que cuida das instalações do clube com eficiência e transparência, e que executa as tarefas que não possam ser melhor realizadas pelos próprios sócios, arbitrando também eventuais conflitos entre eles – custando, para fazê-lo bem feito, o mínimo possível. Esse administrador tem que trabalhar para os sócios (que somos você e eu), e por eles, e não o contrário. Os sócios não devem deixar de comprar comida ou roupa para poder pagar a mensalidade. Quanto mais suas riquezas puderem ficar dentro das suas contas, para uso direto em suas vidas privadas, melhor.

Na teoria liberal, é importante reduzir os gastos públicos, para termos menos impostos. A ideia é que é melhor ter o dinheiro da sociedade circulando na própria sociedade, entre os indivíduos, no mercado, gerando bem-estar direto às pessoas, do que nos cofres do governo. Os impostos, que sustentam o Estado, são um peso para o cidadão – uma espécie de tarifa pelo uso das instalações do país. Enfim: um mal necessário.

O liberalismo prega que a sociedade dependa o menos possível do Estado, para que o poder central não obstaculize nem sobrecarregue a atuação das pessoas – que são, no fim do dia, os agentes produtivos que definem o sucesso da economia, dos negócios, das empresas e das carreiras em um país. Para a direita, quanto menos estivermos reféns dos governantes e de suas canetadas, e das contas que eles nos apresentam, melhor.

O tamanho do Estado e a nossa dependência de um poder central

Na visão liberal clássica, além de aumentar a transparência da máquina administrativa e a efetividade das punições, tornar o Estado menor (e, portanto, mais controlável) é uma medida prática de combate à corrupção. Afinal, quanto menos bens públicos estiverem à disposição dos bandidos, melhor.

Um outro aspecto é que a redução do Estado também contribuiria para mitigar a nossa cultura de dependência de um poder central. Numa sociedade em que o Estado ocupa papel central na economia, todos precisam prestar reverência (e, muitas vezes, pagar propina) a quem manda. O objetivo de vida de muita gente por aqui, por muito tempo, foi estar próximo a uma teta.

Além disso, vários de nós desenvolveram uma dependência emocional em relação ao poder central. Como se os grandes movimentos da sociedade, e também em nossas vidas, tivessem de partir dos governos, e não de nós mesmos. O que gera uma cultura de subserviência acomodada, de castração da própria iniciativa diante de uma instância superior que resolve tudo.

No Brasil, essa é uma questão fundamental. Porque há 500 anos tudo precisa advir do poder central – uma relação de paternalismo e dependência que está presente em toda a sociedade, e que nos paralisa. Boa parte das pessoas prefere permanecer à sombra dos mandos (ou desmandos) governamentais, ainda que na condição de vítima (o que, a partir de determinado momento, oferece também um álibi para as nossas frustrações, vira uma posição confortável) do que romper com essa relação modorrenta e ir à luta, com as próprias forças, em busca de melhores condições de vítima.

Depender menos do governo permitiria à sociedade sofrer menos em momentos de crise – política ou mesmo econômica. Os cidadãos estariam melhor blindados na eventualidade de uma administração ruim – coisa frequente por aqui.

Quando todas as coisas precisam passar pelo Estado, a briga ideológica entre as várias propostas conceituais para a gestão do mamute cego ocupa lugar central em nossas mentes – e pontos cruciais para a melhoria real e sustentável do bem-estar em nossas vidas, como produtividade, eficiência e inovação, acabam esquecidos.

Se a vida brasileira acontecesse mais próxima à atividade econômica, estaríamos mais ocupados em abrir novas empresas, lançar novos produtos, aprender novas competências que pudessem ser vendidas com maior valor ao mercado – e não daríamos tanta atenção àquilo que acontece nos palácios. Quanto menor, menos pesada e menos importante for Brasília, e suas congêneres, para a vida nacional, melhor para o Brasil.

Na teoria liberal, a ideia central de um governo é existir apenas na medida em que ajuda os cidadãos a melhorar de vida. E, acima de tudo, em que não atrapalhe a jornada individual das pessoas em direção ao bem-estar e à prosperidade.

Em tempo: o empreendimento também produz muita ineficiência. Especialmente num país periférico como o Brasil, em que o compromisso com sistemas eficazes e com a racionalidade econômica nunca foram pontos fortes, mesmo entre as empresas. Ainda assim, os desperdícios, as decisões equivocadas e os jeitos toscos de fazer as coisas são muito menos prejudiciais quando acontecem na iniciativa privada do que quando ocorrem no setor público. Por um motivo bastante simples – são erros que não acontecem com o seu dinheiro.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Este texto foi extraído (e levemente adaptado) do capítulo "Sobre Direita e Esquerda", do livro A República dos Editores, do autor, publicado pela Rocco em 2018.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.