Adriano Silva http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Fri, 14 Jun 2019 12:56:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Você está inseguro em relação ao seu lugar no mercado de trabalho? http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/voce-esta-inseguro-em-relacao-ao-seu-lugar-no-mercado-de-trabalho/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/voce-esta-inseguro-em-relacao-ao-seu-lugar-no-mercado-de-trabalho/#respond Fri, 14 Jun 2019 12:56:59 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=102  

Tem momentos na vida em que a gente sente medo da segunda-feira.

A ansiedade mira já na semana seguinte. Nada está garantido para você. Tudo está por construir. Você está nadando contra a correnteza, engolindo um bocado de água, tentando achar seu lugar no mundo. A inércia está posta contra você. Todo dia é uma luta renhida.

Costuma ser assim que quando se está começando algo. São as dores de nascer. Você precisa se provar. Precisa mostrar que o seu projeto faz sentido. A continuidade do ato mero de existir se reveste de angústia. Seu principal desafio é continuar vivo. Chegar até o final da próxima semana com energia suficiente para seguir esmurrando a muralha que se ergue diante de você, com os tijolos daquilo que já está estabelecido. Você é o novo entrante. O mundo parece agir em conluio contra você.

Sobre medo, ansiedade, depressão, síndrome do pânico – essas coisas que só acontecem com os outros

Isso vale para quem está tirando um negócio do papel. Mas também para quem está estreando num emprego novo. Tudo o que você tem é uma aposta. O seu lastro é apenas uma visão ou uma vontade. Seu castelo está todo erigido sobre ar rarefeito.

Quem consegue superar essa fase (que às vezes acontece muito mais dentro da cabeça e do coração da gente do que no mundo real) vai lentamente construindo uma rede de proteção debaixo de si. Então você já não está tão perto de cair e esfregar o rosto no asfalto.

A montanha-russa vai abrindo espaço para um caminho mais plano. A roleta-russa é substituída por um jogo de tabuleiro. Um eventual tropeço já não parece representar a sua morte imediata.

Você vai vencendo a inércia e, aos poucos, achando um lugar no mundo. Nem sempre esse lugar tem o tamanho que você quer. Nem sempre ele está onde você imaginou. Mas você já não está por um fio. A próxima semana já não é um desafio tão grande – você sabe que, de alguma forma, chegará vivo até a próxima sexta-feira. A sobrevivência no curtíssimo prazo está garantida. Você já não tem crises de pânico no meio da madrugada, ao considerar a agenda do dia seguinte, ou os compromissos financeiros que vencem depois de amanhã.

Esse é o momento em que o medo da gente passa a mirar no próximo trimestre.

O risco é jogado mais para frente. A questão agora é chegar vivo ao final do ano. Você já tem sinais concretos de que tem chances reais de dar certo naquilo que está fazendo. Não se trata mais apenas de um plano ou de um desejo.

No empreendimento, você já tem os primeiros clientes, já emitiu algumas notas fiscais, já está na batalha de entregar bem o que vendeu. No emprego, você já participou de reuniões bem-sucedidas, já se enxergou de modo positivo nas retinas de chefes, pares e subordinados. Você já está encontrando encaixe naquele ambiente. Os momentos de taquicardia ou de insônia vão ficando para trás.

É quando o medo da gente passa a mirar no ano seguinte.

O presente exercício está encaminhado. No empreendimento, você já tem alguns contratos mais longos. Que lhe garantem sobreviver no curto prazo. Você já sabe o que precisa fazer para satisfazer seus clientes. Eles não estão mais lhe testando. No emprego, idem, você já encontrou seu lugar. Já foi aceito e reconhecido. Já realizou as primeiras entregas bem-sucedidas. Uma sensação boa de segurança começa a surgir. Algumas atividades começam a se repetir. Você passa a ter uma rotina de tarefas conhecidas, de desafios razoavelmente dominados.

No entanto, seus clientes e demais interlocutores passam a exigir mais de você. A esperar que você continue crescendo, avançando, melhorando. A questão passa a ser como se preparar para continuar relevante no próximo ciclo de mercado, num fluxo acelerado pelas mudanças nas tecnologias disponíveis e nos hábitos dos consumidores.

A cada três anos – no máximo cinco, em indústrias mais protegidas, onde a mudança acontece de modo mais lento – você terá que reaprender boa parte daquilo que sabe, e se iniciar em novas ferramentas que não existiam até ontem, e esquecer vários dos axiomas que garantiram o seu sucesso no ciclo anterior, de modo a poder absorver novos conhecimentos fundamentais à sua sobrevivência.

O medo aí já não é mais não encontrar seu lugar no presente – mas encontrar seu lugar no futuro. A ansiedade aí já não vem de garantir sua sobrevivência imediata – mas de tomar as decisões acertadas para continuar sendo útil e demandado a seguir.

O que lhe arrepia os cabelos da nuca não são mais as questões do dia a dia, mas as decisões que você toma, as escolhas que você faz – e que vão definir como será o seu futuro.

A angústia vem de buscar não envelhecer profissionalmente, não morrer em vida, não ser compulsoriamente aposentado pela própria desconexão com os novos tempos. Sua preocupação passa a ser a manutenção da ponte entre os talentos e competências que você tem para vender com aquilo que as pessoas e empresas estão dispostas a comprar.

Perceba: o medo estará sempre lá. (A menos que você esteja cego. Ou que já tenha morrido profissionalmente.) Então aprenda a conviver com ele. Não tenha medo do medo. Ele pode ser um ótimo aliado. Desde que sirva para lhe levar adiante – e não para lhe paralisar.

 

Falo mais sobre sentir medo e sobre como lidar com ele no Podcast Retrato, do Projeto Draft. Clica e ouve.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

]]>
0
A redenção dessa Copa não é de nossas meninas, mas de quem as ignorou http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/06/11/a-redencao-dessa-copa-nao-e-de-nossas-meninas-mas-de-quem-as-ignorou/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/06/11/a-redencao-dessa-copa-nao-e-de-nossas-meninas-mas-de-quem-as-ignorou/#respond Tue, 11 Jun 2019 14:34:02 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=97  

Esses dias eu estava no clube, à espera da minha aula de Pilates, e dediquei alguns minutos a acompanhar o treino de futsal de um grupo de pré-adolescentes.

(Parei de jogar futebol, meu esporte predileto, há três anos, por conta de uma lesão na coluna lombar, que desconfio ter adquirido – ou agravado – nos treinos de boxe. Depois dos 40, tem certas atividades de alto impacto de que não dá mais para realizar. Aprendi isso do modo mais duro – tendo que abandonar a minha pelada semanal.)

Primeira surpresa: a aula de futsal acolhia um grupo misto. Meninos e meninas mais ou menos entre 12 e 14 anos jogando juntos.

Segunda surpresa: o craque em quadra, o leão do treino, quem estava comendo a bola, era uma menina. Magrinha, com longos cabelos lisos bem presos num rabo-de-cavalo.

Meu primeiro pensamento foi: caramba, por que as mulheres ficaram tanto tempo sem acesso a esse imenso prazer que é jogar futebol? Como pudemos trancafiá-las do lado de fora dessa dimensão maravilhosa que se abre toda vez que alguém rola uma bola, faz uma tabela rápida, tenta um drible, arrisca um chute de longe, salva um gol em cima da linha, antecipa jogadas riscando no éter um ponto futuro que só existe no lampejo criativo de quem joga?

Essa é uma enorme injustiça que se fez historicamente com as meninas mundo afora, mas, principalmente, aqui no Brasil. No país do futebol, o futebol sempre foi um espaço masculino, cheio de testosterona, proibido às mulheres.

No início dos anos 80, fundei um time no BNH em que morava – a AFAR (Associação de Futebol Águia Rubra). Nossa equipe, formada pelos garotos do prédio, mais uns vizinhos de rua, não tinha só um nome pomposo: tinha também um jogo de camisetas novinho em folha com escudo bordado à mão pela minha mãe. Costumávamos jogar na quadra de asfalto do bairro aos sábados, às 8h da manhã. Era um Clube do Bolinha: não se cogitava a presença feminina em nossos treinos e partidas.

Ana Cláudia era nossa amiga. Morava mais abaixo na rua, numa casa feita de madeira que parecia estar sempre suja de terra. Era mais pobre do que nós, andava quase sempre de pé descalço. E gostava de estar conosco. Era uma época em que meninas não brincavam muito com meninos. Ana vinha, com suas roupas surradas, e subia conosco na amoreira no terreno baldio, e brincava de esconde-esconde, e de polícia-e-ladrão.

Desconfio que isso a afastava um pouco das demais meninas que moravam nos edifícios da rua – porque ela era moleca e nos acompanhava em nossas várias fabulações. Fazia guerrinha de cinamomo, ria alto e sabia empurrar. Desconfio também que Ana preferia, sempre que podia, estar fora de casa. Ela tinha um irmão mais velho que muitas vezes vinha lhe buscar e a levava de volta para a casa, pelos cabelos, aos murros e tapas. Ana pela rua, aos gritos, chorando de vergonha e de dor.

Dizia-se que a família de Ana era “macumbeira”, que tinha um terreiro de “saravá” na sua casa. Então ela não tinha muitos amigos, além da gente. A gente a acolhia. Mas não para o futebol.

Ela era mais atlética do que muitos de nós. Tinha a agilidade de quem apanha. Aprendera a driblar, quem sabe, escapando da violência doméstica. Talvez jogasse bem futebol. Não sei dizer. Nunca lhe demos essa chance.

Tenho até hoje uma foto do time perfilado. Com aquelas cores edulcoradas que as Kodak capturavam há quarenta anos. Ana está conosco. Ao meu lado. De braços cruzados, sorriso aberto com seus dentes encavalados, com seu cabelo tigela, mal cortado, vestindo um conjuntinho de malha azul que talvez fosse a sua única roupa de domingo – ou de sair em foto.

Era duro ser mulher naquela época, no Brasil. Mas era ainda mais duro para Ana.

Alguns anos mais tarde, quando comecei a frequentar estádios, o ambiente ainda era francamente hostil às mulheres. Só havia homens nos estádios. Era um ambiente bruto. E embrutecedor. Quando entrava uma mulher, geralmente acompanhada de um homem (que buscava lhe proteger com sua condição masculina, ou então mostrar à horda que aquela fêmea tinha dono, e que ela estava ali sob a guarda do proprietário), era xingada em coro.

Todos riam naquele rito patético de insultar a torcida adversária – e também as mulheres que vestiam suas próprias cores.

Estádios eram lugares – literalmente – escrotos, que expeliam as mulheres à força de ofensas. Uma mulher ir sozinha ao estádio era uma impossibilidade. E mesmo acompanhada por uma ou mais amigas, é coisa que não lembro de ter visto.

Por tudo isso, não é de surpreender que entre 1941 e 1979 as mulheres tenham sido proibidas por lei de jogar futebol no Brasil. Se a mulher que ia ao estádio era puta na minha adolescência, a mulher que jogava futebol na minha infância era lésbica. Sapatão. Ou, na delicada forma gaúcha de dizê-lo, “machorra”.

Por tudo isso, torço muito para que a Seleção Feminina do Brasil vá longe nessa Copa do Mundo. E faça bonito. Que nossas meninas se divirtam. E divirtam todo mundo.

Nossa televisão e, com ela, a sociedade brasileira está tomando tarde a decisão de apoiar o futebol feminino. O que está sendo apresentado como novidade é apenas a constatação de um enorme atraso. (Nos dois sentidos do termo.)

De todo modo, torço por Marta, por Cristiane, por Formiga e companhia – o que inclui as milhares de Anas Cláudias segregadas e humilhadas ao longo de anos, que ficaram pelo caminho.

As meninas merecem a glória. Simplesmente por terem resistido e vencido. Nós, ainda que imerecidamente, teremos a glória de vê-las em ação. Não sei se essa Copa trará a redenção dessa geração de craques. Mas certamente está trazendo a nossa.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

]]>
0
O Perfeito Idiota Brasileiro http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/27/o-perfeito-idiota-brasileiro/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/27/o-perfeito-idiota-brasileiro/#respond Mon, 27 May 2019 17:54:27 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=77 Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nos ombros, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de “tigres” – porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras.

O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa. Influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas – nem mesmo pôr ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente.

É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes no shopping. É o casal que atrasa uma hora para um jantar com amigos. As regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque ele é melhor que os outros. É um adepto do vale-tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

É a moça que estaciona em vaga para deficientes no shopping. É o casal que atrasa uma hora para um jantar com amigos. É quem acha que as regras só valem para os outros.

Ele fura fila. Ela estaciona atravessado. Eles acham que pertencem a uma casta privilegiada. E que seu tempo vale mais do que o tempo dos outros.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si, mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PIB adora isso.

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Até em Buenos Aires ele encara. Aqui, nem a pau. Melhor uma hora de trânsito e R$ 25 de estacionamento do que 15 minutos com a galera do vagão. É que o Perfeito Idiota tem um medo bizarro de parecer pobre. E o modo mais direto de não parecer pobre é evitar ambientes em que ele possa ser confundido com um despossuído qualquer. Daí a fobia do PIB por qualquer forma de transporte coletivo.

Outro modo de nunca parecer pobre é pagar caro. O PIB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso”. O sujeito acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou buscar ofertas, é coisa de pobre. E exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal.

É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega. O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião. E ele não se importa em ficar no vermelho – preocupação com ter as contas em dia, afinal, é coisa de pobre.

O PIB também é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer produto que esteja sendo ofertado numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PIB gosta de pagar caro, mas ama uma boca-livre.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

Um sistema ético que, infelizmente, virou a cara do Brasil. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, no bairro do Humaitá, no Rio, anos atrás, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. Ele está no uso descarado dos acostamentos nas estradas.

E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. No Brasil, ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, de que não dá mais tempo.

Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney.

Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco.

Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, não atrasar mais do que gostaria que atrasassem com você. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade para valer.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Este texto foi originalmente publicado no blog O Executivo Sincero, mantido pelo autor entre 2008 e 2015, e que deu origem à trilogia homônima (O Executivo Sincero, 2014, Ansiedade Corporativa, 2015, e Dono do Próprio Nariz, 2016, todos pela Rocco). Em 2018, por ocasião da publicação do livro A República dos Editores, do autor, esse artigo foi republicado no site da Superinteressante, se tornando o texto mais lido na versão digital da revista na história.

]]>
0
Conservador, progressista, liberal, reacionário: afinal, qual é a sua? http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/conservador-progressista-liberal-reacionario-afinal-qual-e-a-sua/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/conservador-progressista-liberal-reacionario-afinal-qual-e-a-sua/#respond Tue, 21 May 2019 15:25:26 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=69 Entre os conceitos de esquerda e de direita, no espectro político, há muitas zonas cinzentas. Essa discussão tem sido central no Brasil, em especial nos últimos anos. Temos dito e acreditado em muita asneira. Vem comigo dar uma olhada nessas gradações No território da direita, por exemplo, há os liberais e os conservadores, com ideias muito distintas de como gerir um país. E é notável o tanto que os liberais, capitalistas, têm em comum com os sociais-democratas, que estão no terreno da centro-esquerda.

A Teoria da Ferradura, registrada em livro pelo filósofo francês Jean-Pierre Faye, em 2002, é interessante porque quebra com a ideia de que o caminho que leva da esquerda à direita é uma linha reta. A extrema direita e a extrema esquerda, portanto, não seriam polos opostos de uma régua linear. A Horseshoe Theory verga essa régua até ela assumir a forma de uma ferradura. Ou seja, as duas extremidades ficam bastante próximas.

A Teoria da Ferradura, registrada em livro pelo filósofo francês Jean-Pierre Faye, em 2002, quebra com a ideia de que o caminho que leva da esquerda à direita é uma linha reta.

Imagine uma ferradura com as pontas abertas viradas para cima. No arco da direita, que pode ser definido como a coluna do “individualismo”, você tem, na extremidade superior, o Nazismo e o Fascismo. Mais abaixo, num ponto médio do arco, você tem o reacionarismo das elites, o conservadorismo das grandes corporações, o monarquismo, o fundamentalismo religioso.

Já no arco da esquerda, que pode ser definido como a coluna do “coletivismo”, você tem, na extremidade superior, o Comunismo. Mais abaixo, num ponto médio do arco, você tem o Socialismo, o populismo de esquerda.

Nas duas extremidades superiores da ferradura, tanto à esquerda quanto à direita, estão localizados os projetos que envolvem o controle dos indivíduos e a supressão das liberdades individuais. O terreno do totalitarismo, das ditaduras, da intolerância ao diverso, da perseguição política e da eliminação dos opositores. (Também é o território do fundamentalismo religioso – bem como das demais doutrinas ou ideologias que não admitem uma multiplicidade de visões e que trabalham pelo enquadramento e pela padronização do indivíduo, e não pelo seu direito às singularidades e às idiossincrasias.)

Na parte de baixo, onde a ferradura faz a curva, no trecho mais distante das duas extremidades superiores, está o terreno das ideias libertárias, democráticas, do convívio com as diferenças e de respeito ao contraditório, com o poder distribuído entre as pessoas, na infraestrutura social, em vez de concentrado em instituições, na superestrutura da sociedade.

Próxima a essa curva de baixo, no arco da esquerda da ferradura, está a social democracia. No arco da direita, está o liberalismo. E mais abaixo, no extremo da curva, estão as utopias mais afastadas da ideia da necessidade ou da legitimidade de um poder central: o anarcocapitalismo, o anarcossindicalismo, o mutualismo e o voluntarismo.

Então, você poderia recusar a dicotomia entre esquerda e direita e remapear as propostas de organização política e econômica da sociedade em dois eixos: um vertical, tendo na ponta de cima o “controle” e na ponta de baixo a “liberdade”, e outro, horizontal, tendo num flanco o “coletivismo” (arco da esquerda) e no outro o “individualismo” (arco da direita).

Ultradireita, centro-direita, ultraesquerda e centro-esquerda

A ultradireita, no resto do mundo, era fascista, nazista. A ala dos supremacistas brancos, da Ku Klux Kan, dos skinheads. E havia, entre essa turma, tanto quanto no seu oposto à esquerda, uma visão religiosa do mundo. Para a ultradireita, o progresso passaria por coisas como racismo, eugenia e totalitarismo. (Enquanto, para a ultraesquerda, por coisas como a ditadura do proletariado, a revolução total e o fim da história.) A ultradireita é o que fica à direita, depois que o espectro democrático acaba.

No Brasil, a ultradireita sempre foi representada pelo pensamento feudal mais profundo, o ultraconservadorismo mais arraigado, baseado na cassação dos direitos individuais e na supressão das diferenças, com o apoio de um Estado policial e do uso da violência, em nome do controle dos indivíduos pelas instituições, e dos mais vulneráveis pelos mais poderosos. A nossa ultradireita, oligarca, positivista, integralista, sempre foi carola, cafona, passadista, sempre se debateu por censurar o futuro em nome da eternização do passado.

A ultraesquerda é uma proposta de destruição da propriedade privada, de reação violenta ao poder econômico – que também embute a supressão dos direitos individuais pelo Estado. A ultraesquerda, de um lado, é o desejo juvenil de ir contra “tudo que está aí”, de quebrar o que está estabelecido, sem saber direito o que colocar no lugar. Algo próximo do niilismo. (Onde, talvez, se possa espetar os punks.) De outro lado, é o projeto totalitário dos anticapitalistas, com o mesmo tutano de irracionalidade e de virulência ditatorial da ultradireita. A ultradireita é o que fica à esquerda, depois que o espectro democrático acaba.

Já a centro-esquerda era o pessoal que queria uma sociedade menos desigual, também por meio de um papel maior para o Estado, mas dentro do âmbito do capitalismo e de alguns princípios liberais – como direitos individuais e liberdade econômica. Era o pessoal da Social-Democracia e do welfare state – o Estado de bem-estar social –, duas concepções europeias.

E a centro-direita talvez tenha seu melhor exemplo no partido Democrata americano – os “liberais”, como eles são chamados por lá. Um capitalista que não é radical na sua crença na mão invisível do mercado e que acha que é preciso regular a ambição humana, além de oferecer um colchão mínimo àqueles que não puderem sair “vencedores” no modelo de livre competição.

Em resumo: a ultradireita quer um Estado policial a serviço da tradição e da velha classe dominante, a direita (os conservadores) quer um Estado democrático a serviço dos mais ricos, a centro-direita (o liberalismo) reconhece o papel do Estado, mas acredita que o desenvolvimento vem do mercado, a centro-esquerda (a social-democracia) reconhece o papel do mercado, mas acredita que o desenvolvimento requer a ação do Estado, a esquerda (os socialistas) quer um Estado democrático a serviço dos mais pobres, contra o mercado, e a ultraesquerda quer um Estado policial a serviço de uma nova classe dominante revolucionária e anticapitalista.

Revolucionário vs Reacionário, Progressista vs Conservador

Há outros conceitos usados à larga sobre os quais vale a pena consensar. “Revolucionário”, por exemplo. Como quem esteve na situação, na maior parte do tempo e na maioria dos lugares, foram as elites econômicas, cujo poder advinha de um modelo de acumulação de riquezas, “revolucionário” era um termo que se usava para definir o indivíduo – de esquerda – que queria a revolução anticapitalista.

E “reacionário” era o indivíduo que “reagia” às forças da revolução, o sujeito conservador que queria manter os privilégios da classe dominante. O reacionário operava pela manutenção do status quo – que era, em grande medida, o capitalismo. Tratava-se, portanto, de alguém de direita.

Quando o reacionário não pertencia exatamente à elite, mas simpatizava com àquelas prerrogativas de classe, ele era chamado de “pequeno-burguês” – o sujeito que gostava dos valores do capitalismo e da ideia de ganhar dinheiro e de adquirir as coisas que sonhava para si e para sua família, mesmo quando essa possibilidade, para ele, jamais sairia do campo do sonho.

É interessante notar que quando o regime opressivo é de esquerda, como em Cuba ou na Coreia do Norte, países geridos há mais de meio século pela mesma família, quem se opõe a ele não é considerado “revolucionário”, mesmo que se debata contra a elite do lugar, mas, sim, “reacionário” – porque “revolucionários” são aqueles que estão no poder.

É uma contradição em termos – você não pode ser o cara que se eternizou no poder e o “revolucionário” ao mesmo tempo. (Assim como você não pode estar na oposição, bradando por mudanças, e ser chamado de “reacionário”.) Falar em “governo revolucionário” é mais ou menos como falar em “visão cega” ou “movimento estático”. Se você está na situação, em uma ditadura, você está na posição de reagir a qualquer voz dissidente, a qualquer desejo de transformação – então você é o “reacionário”.

Diante de “reacionários” de esquerda, os “revolucionários” são os caras que sonham com a livre iniciativa. (Será que num regime assim, ao sujeito médio que deseja manter os privilégios do politburo, mesmo quando ele mesmo não é membro do partido, uma vez que não podemos evidentemente chamá-lo de “pequeno-burguês”, seria possível nomeá-lo “pequeno-comunista”?)

Da mesma forma, “progressista”, no Brasil, sempre foi um conceito associado à esquerda – uma vez que previa mudanças e reformas num cenário historicamente dominado pelas oligarquias. Na mão contrária, “conservadores” eram todos aqueles que não queriam mudar nada – uma ideia associada à direita.

O que parece é que há “progressistas” tanto à esquerda quanto à direita, buscando reformar o país, cada qual pela sua via. E que também, ao menos desde que a esquerda chegou ao poder central no Brasil, dos dois lados da mesa, “conservadores” que dependem do atual estado de coisas para continuar existindo.

Liberal na economia, conservador nos costumes – e vice-versa

As definições clássicas de esquerda e direita, e suas derivações, foram concebidas num mundo dicotômico e polarizado. O século 20 foi marcado por uma disputa aberta entre capitalismo e comunismo – da Revolução Russa, em 1917, à Queda do Muro de Berlim, em 1989. Esse dualismo nos ajudava a compreender com mais clareza o espectro político. O mundo era mais simples. Havia menos áreas cinzentas. No século 21, as coisas se tornaram um pouco mais complexas. Novas questões surgiram. Temos outros desafios a resolver. E os velhos conceitos têm se mostrado insuficientes para compreendermos e respondermos a todas as nuanças que colocam à nossa frente.

Uma das novas contradições: tem gente liberal nos costumes que não é liberal em termos econômicos. Pessoas que se batem pelas liberdades individuais, no plano do comportamento, mas que ao mesmo tempo querem economia controlada e governo regulando com mão pesada as relações entre os indivíduos.

O contrário também existe: gente liberal na economia e totalitária nos costumes. Pessoas que pregam total liberdade para o indivíduo empreender e gerar riquezas, mas que ao mesmo tempo desejam regular severamente o que cada um faz com seu corpo e com a sua vida, ou o que as pessoas podem dizer ou expressar artisticamente, por exemplo.

Chuck Lorre, criador de séries como Two and a Half Man, no seu vanity card de número 375, que piscou ao fim de um episódio de The Big Bang Theory, tem algo a dizer: “Me perdoe uma pequena reflexão política, mas eu gostaria de discutir algo que venho pensando há muito tempo. Sempre entendi que o Partido Republicano tem, como sua plataforma central, a ideia de que os seres humanos não devem jamais ser dominados por um governo monolítico que lhes diga como viver suas vidas. Eu gosto disso. Trata-se de uma verdade fundamental, e eu não consigo imaginar nenhuma mente de direita discordando disso. Mas tenho notado também que há muita gente no Partido Republicano que insiste em dizer às pessoas exatamente como elas têm que viver. Por exemplo: álcool, sim. Maconha, não. Casamento heterossexual, sim. Casamento gay, não. Jesus, sim. Outros profetas, não. Pena de morte, sim. Aborto, não. Capitalismo, sim (à força, se for necessário). Coletivismo, de jeito nenhum!”

Ou você garante liberdades ao indivíduo, tanto no campo econômico quanto comportamental, e defende esse espaço para decisões e movimentações pessoais (que no fim do dia representam o direito que cada um tem de buscar a própria felicidade do jeito que melhor lhe aprouver), ou você estará caminhando em direção ao dirigismo, ao controle externo, ao totalitarismo da instituições sobre as pessoas. E isso tem a ver com Ditadura – seja ela de esquerda ou de direita – e não com Democracia.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Este texto foi extraído (e levemente adaptado) do capítulo “Sobre Direita e Esquerda”, do livro A República dos Editores, do autor, publicado pela Rocco em 2018.

]]>
0
Afinal, o que significa ser de “direita”? http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/afinal-o-que-significa-ser-de-direita/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/afinal-o-que-significa-ser-de-direita/#respond Wed, 15 May 2019 12:32:41 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=80 O convite que lhe faço hoje é mergulharmos nessa questão: afinal, o que é ser de “direita”?

A direita aflorou no Brasil nos últimos anos, saiu do porão, tomou o poder, está na ofensiva por aqui – e mundo afora também. E como as palavras têm poder, precisamos entender o que elas significam. Em todas as nuanças possíveis, de modo a utilizá-las – e compreendê-las – corretamente, antes de sairmos por aí batendo no próprio peito (ou na cara dos outros) dizendo que somos isso ou aquilo.

Direita costumava significar capitalismo. O direito do indivíduo de construir seu próprio enriquecimento. De ganhar e acumular poder aquisitivo. E a liberdade para fazer o que bem entender com a própria vida, sem um planejamento externo, com a menor ingerência possível de uma autoridade superior.

Se você acreditava que cada um tem que cuidar de si, e fazer por onde, do seu jeito, a partir de suas próprias escolhas, desafiando a ordem vigente e as condições dadas, e se você achava que o esforço individual é a melhor forma de gerar e distribuir riqueza em sociedade, e que esse esforço deve ser estimulado e bem recompensado, então você era capitalista.

À direita estava o liberalismo. Um conjunto de preceitos que apostava na geração de bem-estar mais pela via da aceleração econômica do que pela via da organização política. E que estava baseado em ideias como: Estado pequeno, provendo os serviços públicos essenciais, como uma espécie de zelador do condomínio. Governo agindo mais como juiz da partida do que como um dos jogadores. Economia aberta, mercado livre, regulado pela competição entre empresas privadas. Justiça ágil e independente, solucionando rapidamente os conflitos entre os jogadores. E, principalmente, foco no indivíduo, com mais liberdades e mais responsabilidades transferidas do âmbito público para o privado, e da esfera institucional para o dia a dia das pessoas físicas e jurídicas.

Direita brasileira, coronelismo e tradição patrimonialista

Aqui no Brasil, direita também significava coronelismo, descaso dos mais abastados com a coletividade que os circundava e sustentava. Ser de direita, por aqui, era apostar na desigualdade social como meio de eternizar privilégios. E pertencer ou apoiar uma elite que jamais soube, ou quis, entender o que é a noblesse obligue – a “nobre obrigação” da classe dirigente em relação a seus dirigidos.

A direita no Brasil nunca acreditou na meritocracia, no mercado aberto e na livre competição. Assim como nunca desejou uma Justiça independente. Na mão inversa, a direita brasileira sempre buscou minimizar a concorrência no mercado interno, e sempre procurou contar com uma Justiça devotada à conservação de suas prerrogativas de classe.

Nossa direita nunca acreditou no enriquecimento por meio do trabalho duro, do talento individual, do desenvolvimento de diferenciais competitivos. Ao contrário: ela sempre operou pela manutenção de vantagens imorais, muitas vezes ilegais, obtidas por meio da concentração oligárquica da renda e do poder – e da apropriação injusta, quando não indébita, pela classe dominante, da riqueza que deveria ser de todos.

Eis a nossa tradição patrimonialista – que vem dos primórdios, ainda nas primeiras décadas da história do Brasil, com o loteamento do país em capitanias hereditárias entregues a nobres portugueses. Essa tradição cartorial, feudalista, de distribuição dos meios de produção, para usufruto vitalício, entre os amigos do rei – que depois passam de pai para filho a posse de terras, indústrias e gentes –, ainda subsiste entre nós.

No Brasil, a direita nunca operou pela redução do Estado. Ao contrário, nossos capitalistas sempre dependeram do Estado grande. Para nossa classe dirigente, quanto maior for o erário, mais ganhos ela pode obter ao operar seu fisiologismo, mais vantagens privadas ela terá a partir da espoliação que lograr fazer dos bens públicos.

A relação da nossa direita com o país sempre foi extrativista, bulionista, de rapinagem. O Estado no Brasil é uma engrenagem que suga, com poder de autoridade, a riqueza da sociedade, em especial às custas dos mais pobres – mas nossa direita não vê isso como um problema, e sim como uma oportunidade, porque dessa enorme algibeira compulsória e confusa é mais fácil drenar para seus próprios bolsos os recursos que deveriam beneficiar a todos. O projeto da direita por aqui não é reformar o Estado – mas ocupá-lo, controlá-lo, e obter por meio dele o máximo de ganhos pessoais, econômicos e políticos.

Direita costumava significar capitalismo. O direito do indivíduo de construir seu próprio enriquecimento. De ganhar e acumular poder aquisitivo. E a liberdade para fazer o que bem entender com a própria vida, sem um planejamento externo, com a menor ingerência possível de uma autoridade superior.

Estado vs Mercado

Para a direita clássica, governo é custo, na medida em que ele não gera riqueza – quem gera riqueza é a sociedade. O governo é um síndico que o edifício precisa ter – para cuidar das áreas comuns, para impor as decisões apuradas em assembleia, para zelar pelos interesses de todos os condôminos.

Essa é a visão liberal do Estado – um administrador que cuida das instalações do clube com eficiência e transparência, e que executa as tarefas que não possam ser melhor realizadas pelos próprios sócios, arbitrando também eventuais conflitos entre eles – custando, para fazê-lo bem feito, o mínimo possível. Esse administrador tem que trabalhar para os sócios (que somos você e eu), e por eles, e não o contrário. Os sócios não devem deixar de comprar comida ou roupa para poder pagar a mensalidade. Quanto mais suas riquezas puderem ficar dentro das suas contas, para uso direto em suas vidas privadas, melhor.

Na teoria liberal, é importante reduzir os gastos públicos, para termos menos impostos. A ideia é que é melhor ter o dinheiro da sociedade circulando na própria sociedade, entre os indivíduos, no mercado, gerando bem-estar direto às pessoas, do que nos cofres do governo. Os impostos, que sustentam o Estado, são um peso para o cidadão – uma espécie de tarifa pelo uso das instalações do país. Enfim: um mal necessário.

O liberalismo prega que a sociedade dependa o menos possível do Estado, para que o poder central não obstaculize nem sobrecarregue a atuação das pessoas – que são, no fim do dia, os agentes produtivos que definem o sucesso da economia, dos negócios, das empresas e das carreiras em um país. Para a direita, quanto menos estivermos reféns dos governantes e de suas canetadas, e das contas que eles nos apresentam, melhor.

O tamanho do Estado e a nossa dependência de um poder central

Na visão liberal clássica, além de aumentar a transparência da máquina administrativa e a efetividade das punições, tornar o Estado menor (e, portanto, mais controlável) é uma medida prática de combate à corrupção. Afinal, quanto menos bens públicos estiverem à disposição dos bandidos, melhor.

Um outro aspecto é que a redução do Estado também contribuiria para mitigar a nossa cultura de dependência de um poder central. Numa sociedade em que o Estado ocupa papel central na economia, todos precisam prestar reverência (e, muitas vezes, pagar propina) a quem manda. O objetivo de vida de muita gente por aqui, por muito tempo, foi estar próximo a uma teta.

Além disso, vários de nós desenvolveram uma dependência emocional em relação ao poder central. Como se os grandes movimentos da sociedade, e também em nossas vidas, tivessem de partir dos governos, e não de nós mesmos. O que gera uma cultura de subserviência acomodada, de castração da própria iniciativa diante de uma instância superior que resolve tudo.

No Brasil, essa é uma questão fundamental. Porque há 500 anos tudo precisa advir do poder central – uma relação de paternalismo e dependência que está presente em toda a sociedade, e que nos paralisa. Boa parte das pessoas prefere permanecer à sombra dos mandos (ou desmandos) governamentais, ainda que na condição de vítima (o que, a partir de determinado momento, oferece também um álibi para as nossas frustrações, vira uma posição confortável) do que romper com essa relação modorrenta e ir à luta, com as próprias forças, em busca de melhores condições de vítima.

Depender menos do governo permitiria à sociedade sofrer menos em momentos de crise – política ou mesmo econômica. Os cidadãos estariam melhor blindados na eventualidade de uma administração ruim – coisa frequente por aqui.

Quando todas as coisas precisam passar pelo Estado, a briga ideológica entre as várias propostas conceituais para a gestão do mamute cego ocupa lugar central em nossas mentes – e pontos cruciais para a melhoria real e sustentável do bem-estar em nossas vidas, como produtividade, eficiência e inovação, acabam esquecidos.

Se a vida brasileira acontecesse mais próxima à atividade econômica, estaríamos mais ocupados em abrir novas empresas, lançar novos produtos, aprender novas competências que pudessem ser vendidas com maior valor ao mercado – e não daríamos tanta atenção àquilo que acontece nos palácios. Quanto menor, menos pesada e menos importante for Brasília, e suas congêneres, para a vida nacional, melhor para o Brasil.

Na teoria liberal, a ideia central de um governo é existir apenas na medida em que ajuda os cidadãos a melhorar de vida. E, acima de tudo, em que não atrapalhe a jornada individual das pessoas em direção ao bem-estar e à prosperidade.

Em tempo: o empreendimento também produz muita ineficiência. Especialmente num país periférico como o Brasil, em que o compromisso com sistemas eficazes e com a racionalidade econômica nunca foram pontos fortes, mesmo entre as empresas. Ainda assim, os desperdícios, as decisões equivocadas e os jeitos toscos de fazer as coisas são muito menos prejudiciais quando acontecem na iniciativa privada do que quando ocorrem no setor público. Por um motivo bastante simples – são erros que não acontecem com o seu dinheiro.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Este texto foi extraído (e levemente adaptado) do capítulo “Sobre Direita e Esquerda”, do livro A República dos Editores, do autor, publicado pela Rocco em 2018.

]]>
0
Afinal, o que significa ser de “esquerda”? http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/afinal-o-que-significa-ser-de-esquerda/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/afinal-o-que-significa-ser-de-esquerda/#respond Wed, 08 May 2019 19:13:11 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=74 “Esquerda” virou um palavrão no Brasil. Chamar alguém de “comunista” virou um xingamento. “Marxista” é o pior dos apupos. Mas alguém sabe realmente o que está falando – ou o que está ouvindo quando morre de medo ou de raiva diante de um termo como socialismo? Palavras têm poder. É preciso entender o que elas representam, em todas as nuanças possíveis, de modo a utilizá-las – e compreendê-las – corretamente.

Este é o convite que faço a você hoje: afinal, o que significa ser de “esquerda”?

Esquerda costumava significar comunismo ou socialismo. Se você não era a favor do capitalismo, você era de esquerda.

Se você achava que o dinheiro não era o santo gral da humanidade, nem um semideus a ser adorado, nem que merecia ser a medida de todas as coisas ou a referência para regular as relações em sociedade, você era de esquerda.

Dinheiro é riqueza circulante. Um mecanismo que regula as trocas de bens e serviços entre os indivíduos. Que conduz à competição entre eles pela conquista e estoque desse poder de compra. E que resulta em desigualdade social – uns ficam com muito mais do que precisam (e passam a não ter mais que trabalhar para ganhar dinheiro), outros ficam com muito menos do que necessitam – mesmo investindo no trabalho todo o seu tempo de vida. Então, se você era contra a ascendência do capital sobre o ser humano, e contra as desigualdades que provêm do acúmulo de poder aquisitivo, você era de esquerda.

Ser de esquerda era buscar uma sociedade igualitária, sem privilégios de uns sobre outros, com condições mínimas de dignidade econômica garantidas a todos, sem o fosso social entre os muito ricos e os miseráveis que define tão bem, e racha tanto, um país como o Brasil.

A esquerda apostava na geração de bem-estar mais pela via da política do que pela via da economia. O bem-estar viria muito mais do senso de justiça em dividir o pão existente do que dos ganhos de produtividade de produzir mais pães a preços menores.

Se você achava que o dinheiro não era o santo gral da humanidade, nem um semideus a ser adorado, nem que merecia ser a medida de todas as coisas ou a referência para regular as relações em sociedade, você era de esquerda.

O termo “esquerda” surgiu na Revolução Francesa, no final do século 18. Os Jacobinos, liderados por Robespierre, que sentavam à esquerda na Assembleia Nacional Francesa, e que eram mais radicais na implantação do novo regime, se opunham aos integrantes do Clero e da Aristocracia, que sentavam à direita e representavam os interesses remanescentes do Ancien Régime.

De modo geral foi assim, no mundo todo, ao longo de muitos anos – ser favorável aos interesses dos poderosos, da chamada classe dominante, dos detentores do capital e dos meios de produção, era ser de direita; ser favorável aos interesses dos destituídos, dos descamisados, dos que nada tinham além da sua força de trabalho, era ser de esquerda.

Ascetismo moral e visão ingênua do ser humano

Aqui no Brasil, havia também, na esquerda, uma bandeira de honestidade inquestionável, de correção inflexível, de ética inegociável, quase como um ascetismo moral, uma profissão de fé – afinal, se você era contra a opressão do homem pelo homem – e essa era uma posição de esquerda – era óbvio que você tinha o coração puro.

Assim como era óbvio que quem estivesse do outro lado do espectro político, numa posição de direita, defendendo os privilégios estabelecidos para uns, e, por conseguinte, as injustiças impostas a outros, não tinha essa retidão, nem essa bondade, e nem podia ser boa gente.

A crença era que os trabalhadores, explorados, quando tomassem o poder, não se pareceriam em nada com os verdugos exploradores do sistema capitalista. Afinal, atuar de modo espúrio era a “práxis” das elites que governavam o país, e o mundo, há séculos. A exploração dos mais frágeis pelos mais poderosos era coisa de ricos – então esse não era um pecado no qual os pobres, bons selvagens, o povo escolhido, fossem incorrer. O poder, na mão da esquerda, jamais corromperia essa mão, que tinha o destino manifesto de ser redentora e de se manter imaculada.

O projeto da esquerda, que visava a extinção do capitalismo e das injustiças que dele decorrem, promoveria também, automaticamente, a sanitização das más intenções e das ações torpes em todos os homens. Ex-escravos jamais se tornariam os novos feitores – desde que sua liberdade fosse conquistada de forma autônoma e não concedida por um senhor feudal, em troca da sua alma. Seríamos todos incorruptíveis. Estaríamos livres da ganância e da insensibilidade burguesas.

Num primeiro momento, todos seríamos recompensados proporcionalmente por aquilo que produzíssemos para a coletividade – o socialismo. Num segundo momento, cada um produziria de acordo com a sua capacidade e ganharia de acordo com a sua necessidade – o comunismo. Uma linda utopia de justiça e solidariedade. A espécie humana como uma grande fraternidade – tanto na base da sociedade, quanto entre os novos líderes, legítimos representantes do povo. (Essa representação, no novo sistema, não correria jamais o risco de começar considerando todos iguais e descambar logo em seguida para que uns se tornassem mais iguais do que outros, com acesso a privilégios exclusivos, e se eternizassem no poder…)

Então é possível que a utopia de esquerda embuta uma visão ingênua, ou excessivamente otimista, do ser humano. Boa parte do malfuncionamento das engrenagens de esquerda, como se viu nas várias experiências do chamado “socialismo real”, talvez se deva ao fato de que elas contavam com uma peça central que jamais existiu nesse quebra-cabeça – um ser humano justo, fraterno, solidário e consciencioso.

O projeto coletivista de esquerda e o egoísmo intrínseco dos brasileiros

No caso brasileiro, a proposta de esquerda esbarra num paradoxo adicional: como construir um projeto coletivista numa sociedade que ignora o conceito de coletividade? O individualismo à brasileira é do tipo que não dá a mínima para o outro. É um traço formativo da nossa sociedade: eu jogo lixo na rua porque isso resolve o meu problema – e os outros que se lixem. Idem para estacionar em fila dupla, furar a fila, andar pelo acostamento, bloquear a passagem num corredor ou numa escada rolante etc. Somos, a rigor, 200 milhões de folgados que têm certeza de que seu tempo, seus interesses, suas prioridades, seus desejos, suas urgências e suas demandas são mais importantes do que os do vizinho. As nossas dores são as únicas que importam.

O egoísmo do brasileiro nos leva a não conseguir negociar com o próximo um território mínimo de convivência, nem, muito menos, de interesses em comum, o que não nos permite construir nada conjuntamente. Trata-se de uma postura (auto)destrutiva, porque nos coloca num permanente estado de guerra entre iguais.

Por isso a vida social no Brasil é um ambiente de grande tensão – quem não leva vantagem é subtraído, se você não for malandro, vira otário. Nem mesmo a Lei, a zona neutra, as regras básicas que todos deveriam seguir, e que servem para regular a beligerância entre os indivíduos num país movido à competição, como os Estados Unidos, é respeitada no Brasil. Aqui a Lei vale de modo diferente para uns e para outros, dependendo do poder da pessoa envolvida diante dos demais.

No limite, o individualismo delinquente praticado no Brasil é um empecilho à própria utopia liberal. Com essa cepa de egoísmo, é impossível gerar o bem-comum – seja num modelo de esquerda, seja numa engrenagem capitalista desenhada para levar isso em consideração.

Heróis são de esquerda, vilões são de direita

A conotação da esquerda sempre foi a do herói, do mártir, do cara que briga por justiça e por um mundo melhor. Eis o arquétipo de esquerda – Robin Hood, que tira dos ricos para dar aos pobres. Já a conotação da direita sempre foi a do vilão, do cara que briga para manter no mundo as injustiças que lhe favorecem. Eis o arquétipo da direita – Príncipe John, o usurpador.

(Note-se, entretanto, que Príncipe John era um feroz arrecadador de impostos, que retirava os cobres das algibeiras das pessoas comuns para abarrotar seu erário, servindo-se da violência do Xerife de Nottingham para isso. E note-se que Robin Hood se insurgiu contra essa ganância e essa coerção, que nada retornavam aos cidadãos que trabalhavam para gerar as riquezas de que pouco gozavam, porque tinham que sustentar o trono. Ou seja, também é possível ver Príncipe John como o Estado que custa bilhões à sociedade e como o governo perdulário – que, com frequência, como aqui no Brasil, é ineficiente, além de corrupto. Assim como é possível ver Robin Hood como um liberal, talvez um anarcocapitalista, que se insurge contra isso – inclusive contra o braço policial do Estado, representado pelo Xerife – e que sonha com que a riqueza gerada pelas pessoas possa permanecer em seus bolsos, ao invés de ser achacada por um poder central que existe, acima de tudo, para sustentar a si mesmo.)

Ao longo do século 20, ser de esquerda era também ser um pouco maldito, consequência de confrontar os poderosos – uma contrapropaganda da qual, aliás, Robin Hood também se ressentia. Um dos efeitos da Ditadura Militar no Brasil é que, ao longo de duas décadas, ser de esquerda também passou a representar a coragem de resistir. Diante do tacão da direita totalitarista, era quase óbvio, por oposição simples, para qualquer pessoa decente, ou minimamente pensante, ser um pouco de esquerda. (Era fácil posicionar-se à esquerda.) Debaixo dos coturnos, ser contra o regime dos generais, contra a tortura, ser democrata, defender a liberdade para o povo e os direitos dos trabalhadores era quase uma questão de caráter – e tudo isso implicava se posicionar à esquerda. A Ditadura, apoiada pelos Estados Unidos, fez muito mal para a reputação do capitalismo no Brasil.

A truculência dos militares gerou vítimas e mártires do outro lado. E, em consequência disso, um senso de heroísmo atrelado à esquerda. Essa visão da esquerda como o espírito encarnado de Zorro foi crescendo no Brasil até ela assumir o poder central do país, em 2002. Aí, pela primeira vez em nível federal, a esquerda virou situação por aqui. O auge do orgulho abriu espaço para grandes expectativas, envoltas numa sensação de sonho virando realidade.

E, a partir daí, aquela imagem começou a mudar. Não se tratava mais do agente subterrâneo, disposto a pegar em armas contra a tirania dos poderosos. Nem do velho comunista boêmio e boa-praça. Nem do intelectual marxista, estudioso das teorias filosóficas que sustentam o pensamento de esquerda. Nem do herói popular aguerrido, oriundo da massa oprimida. A esquerda, no país, deixou de ser avaliada pelo que diz, e passou a ser cobrada pelo que faz.

Como resultado, a esquerda entrou na berlinda. Perdeu seu maior ativo – o seu discurso histórico. Como um pregador que não pudesse mais lançar mão de seu evangelho. A crise ética deflagrada no seio da esquerda, epitomizada pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e pela prisão de Lula, em 2018, não apenas expôs os atos da esquerda no poder, invertendo o sentimento de grande parte das pessoas em relação àquelas promessas, como gerou uma reação conservadora de grandes proporções – pela primeira vez, em mais de meio século, desde o Golpe Militar, se tornou possível no Brasil alguém se assumir de direita, e até de ultradireita, à luz do dia, sem ser considerado apenas um lunático ou um facínora.

De todo modo, é por conta daqueles arquétipos clássicos que o malfeito nos soa menos ofensivo num cara de direita – em relação ao qual jamais nutrimos grandes expectativas – do que num cara de esquerda – que trai a fala puritana no qual depositamos nossa Fé. Nos agride muito mais sermos avassalados por alguém que acreditávamos ser um anjo do que por alguém que já sabíamos ser um demônio.

Sermos enganados por enganadores históricos e profissionais, que já estavam de algum modo contabilizados na coluna das perdas e danos, tudo bem. Do ladrão confesso, do bandido óbvio, do meliante autoevidente, não esperamos nada. Ou melhor: já esperamos dele o pior. (E às vezes até nos surpreendemos positivamente, quando ele deixa uma fatia de pão sobre a mesa, depois de afanar o café da manhã.)

Mas quando quem se revela bandido tinha a nossa confiança, embalava o nosso sonho e empunhava a nossa bandeira, nos sentimos profundamente ofendidos. Sermos enganados por quem nos enganava justamente fingindo não ser um enganador, ah, isso não. Aí é pessoal. É acinte. Nosso monge simplesmente não tem o direito de fazer igual ou pior do que os bandoleiros que ele excomungava em seu discurso beatífico.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

Este texto foi extraído (e levemente adaptado) do capítulo “Sobre Direita e Esquerda”, do livro A República dos Editores, do autor, publicado pela Rocco em 2018.

]]>
0
Aprenda a xingar do jeito certo http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/25/aprenda-a-xingar-do-jeito-certo/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/25/aprenda-a-xingar-do-jeito-certo/#respond Thu, 25 Apr 2019 19:57:59 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=62  

Nenhuma palavra exprime o sentimento de revolta diante de uma situação ultrajante melhor do que um palavrão. Em qualquer língua – trata-se de um utensílio universal. É para isso que os xingamentos existem: para comunicar, em letras capitais, de modo inequívoco, a nossa indignação diante de uma injúria, de uma injustiça, de um absurdo.

O palavrão, na melhor das hipóteses, é uma forma de devolver a agressão sofrida. Em tempo real. De passar uma risca no chão, com a ponta da faca, e dizer a quem nos ofende que ofensas não serão toleradas – ou que sabemos ofender de volta.

Em sua pior acepção, os xingamentos são bullying deliberado – tapas na cara que surgem como um convite explícito para a briga.

Diante de uma situação que desperta a raiva, você tem duas opções. Uma é não deixar o próprio sangue ferver. Exercitar a compaixão diante do agressor, a compreensão – ou a superioridade – diante da desinteligência alheia, ao invés do ódio.

A outra é reagir. E aí o xingamento vem. Mesmo que você só pense no palavrão, e não o pronuncie, ele emerge pronto, bruto, afiado, dos seus subterrâneos. É o que acontece com a imensa maioria das pessoas, que ainda não consegue agir como Jesus e Buda preconizaram.

Então é preciso saber xingar. O que não é uma questão simples se você cultivar uma ética pessoal contrária à discriminação de gênero ou aos preconceitos de cunho sexual. Eis o ponto: dá para xingar de modo justo, sem se tornar pior que o seu adversário? Dá para expressar a sua contrariedade com veemência, sem abrir mão da sua visão de mundo, das suas escolhas e dos seus valores?

Eis o problema com os palavrões: encontrar aqueles que lhe representam, antes de sair por aí bradando barbaridades que fazem mais mal a você do que ao seu opositor.

Senão, vejamos.

Filho da puta. Prostituição, quando é uma escolha do indivíduo, quando não há coação ou exploração, é uma profissão como qualquer outra. Uma troca soberana entre um prestador de serviços e um comprador daqueles serviços e, portanto, uma atividade econômica que precisa ser respeitada. Não há, como se vê, demérito algum em ser filho de uma puta. Como não há, a princípio, em ser filho de um advogado ou de um deputado.

Puto(a), quenga. Ver acima.

Piranha. Aqui o foco muda – trata-se de um preconceito contra mulheres que têm uma vida sexual ativa. É como se fosse um demérito para as mulheres praticar sexo regularmente. E como se elas devessem se submeter passivamente a um só homem, ao invés de escolher soberanamente quantos e quais homens desejam levar para a cama.

Periguete, vadia, vagabunda, vagaba, maria-gasolina. Ver acima.

Veado. Trata-se de considerar a homossexualidade um fator de vergonha ou de diminuição da honra do indivíduo. Uma conversa tão arcaica quanto, sei lá, o terraplanismo. Os gregos, cinco séculos antes de Cristo, já sabiam que a Terra era redonda e que não havia problema algum em amar pessoas do mesmo sexo.

Gay, sapatão, sapata, velcro, pederasta. Ver acima.

Bicha. Trata-se de um sujeito com trejeitos efeminados. Portanto, esse termo embute uma visão duplamente ofensiva – além de desdizer dos homens que assumem gestos pretensamente femininos, desdiz da própria feminilidade desses gestos, características supostamente oriundas do universo feminino. Como se qualquer coisa que remetesse ao mundo das mulheres, especialmente em homens, fosse uma desonra.

Fresco, frutinha, boneca, maricas, pera, perobo, boiola, baitola, gazela, biba, mona, bambi, traveco(a). Ver acima.

Vai tomar no cu. Um enorme juízo de valor torto em relação ao sexo anal. Em especial, no que ser refere a quem está sendo penetrado. Outra vez, as características de “fêmea” são vistas como as piores possíveis, em especial se elas forem assumidas por um “macho”. O sexo anal é um dos grandes tabus nacionais – a ode brasileira à bunda não é outra coisa que não a nossa dificuldade em lidar com ela. Há ainda entre nós a ideia de que um homossexual em posição ativa não é homossexual – ou é um homossexual em situação menos vexatória do que a de quem está em posição passiva.

Vá se foder, se fodeu, vai dar meia hora de cu, pau no cu, sodomita, fronha, queima-rosca, morde-fronha, entubar. Ver acima.

Bundão. Outra referência ao traseiro, agora sem a conotação sexual, mas com grande preconceito em relação a essa área do corpo. Como se a função excretora retirasse da região qualquer charme ou dignidade. Como se a área fosse sinônimo de coisas desinteressantes e caídas. Uma visão higienista – e bastante sem graça – do corpo e da vida.

Cuzão, cu, bunda. Ver acima.

Chupa! A ideia aqui é que fazer sexo oral, de modo ativo, é uma humilhação, uma posição servil; enquanto receber sexo oral, de modo passivo, ser servido na própria genitália pela boca de outrem, é uma posição superior, uma afirmação de poder. Essa ideia nasce no universo masculino, com o falo no centro das ações. As mulheres recentemente têm brincado com o tema, trocando de posição com os homens, mas sem, necessariamente, quebrar com o preconceito que há na visão de que só quem é chupado se diverte, às custas do calvário de quem chupa. (Essa é uma ideia francamente absurda. Ou ingênua. De gente com pouca experiência e paladar infantil.)

Chupa-rola, chupador(a), chupa-vara, chupa-pica, boqueteiro(a). Ver acima.

Caralho(a), porra, pica, saco, escroto, na cabeça do meu pau. Os xingamentos, de modo geral, são machistas. São memes que cristalizam, há muito tempo, uma visão falocêntrica do mundo. Curiosamente, a genitália masculina é muito mais usada com polaridade negativa do que a feminina. Talvez para fazer um ponto: homem que é homem (heterossexuais cisgênero) não gosta de homem, gosta mesmo é de mulher – ainda que de modo muitas vezes depreciativo. Curiosamente, é essa visão que ainda hoje pauta a nossa vida – até mesmo no nível da linguagem e no modo como xingamos.

Gorda. O que seria apenas uma constatação (talvez algo intrusiva e deselegante), o termo se torna – em especial na voz de mulheres mirando em outras mulheres – no mais ferino dos xingamentos. Trata-se de atacar o outro com o que sentimos ser a nossa maior fragilidade, com a ideia que mais nos aterroriza. Ao tocar no que imaginamos ser o ponto nevrálgico do outro, de modo direto, sem metáforas e sem espírito jocoso, essa categoria de xingamentos figura como uma das mais cruéis e covardes. As referências são normalmente às características físicas ou funcionais do outro que nós consideramos desabonadoras. Um festival de preconceito, ignorância e insensibilidade. Boa parte dessas expressões de ódio já constitui crime.

Broxa, velho(a), dona-maria, preto(a), negrada, amarelo(a), pobre, favelado(a), nordestino(a), paraíba, baiano, manco(a), desdentada(o), toco, pau de virar tripa, cachaceiro(a). Ver acima.

Cadela, vaca. Analogias animais usadas especialmente por mulheres para mencionar outras mulheres. “Cadela” está muito próximo de “puta” ou “piranha”. “Vaca” é uma mistura de “gorda”, “égua” e “burra”. O que é uma injustiça com as cachorras, que só fazem sexo quando querem, sem jamais receber dinheiro por isso, e com as vacas, seres pacíficos que há séculos doam tudo que têm aos seres humanos sem pedir em troca nada além de água e capim.

Cavalo, égua, burro(a), porco(a). Enquanto “cavalo” e “égua” referem uma pessoa grossa, rude, estúpida, “burro” é uma referência à falta de inteligência e “porco” à falta de higiene do indivíduo. O que é, de novo, uma injustiça com os animais – usamos seus nomes em vão para exprimir em seres humanos características que não são definidoras daqueles animais.

Merda. Finalmente chegamos a um xingamento que parece não comprometer quem o enuncia. Merda é excremento, um rejeito que cheira mal, algo indesejável.

É isso. Xingar é uma bosta. Mas ninguém está livre de precisar lançar mão desse artifício. Espero que esse arrazoado contribua para que você, na eventualidade de ter que abrir a boca para xingar, não fale merda.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

]]>
0
Sobre a depressão de Nilmar – e a ansiedade, essa doença que nos consome http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/sobre-a-depressao-de-nilmar-e-a-ansiedade-essa-doenca-que-nos-consome/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/sobre-a-depressao-de-nilmar-e-a-ansiedade-essa-doenca-que-nos-consome/#respond Mon, 15 Apr 2019 12:58:36 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=55 Nilmar Honorato da Silva. 34 anos. Um dos grandes centroavantes que o Inter revelou. Meu ídolo, que tantos sorrisos estampou em meu rosto, por quem sempre torci – mesmo quando envergou outras camisas.

Nilmar. Garoto do bem, bom de bola, goleador. Um nove raçudo, veloz, vertical, com quase 200 gols marcados numa carreira brilhante, precocemente abortada em 2017, quando foi repatriado pelo Santos depois de mais um período jogando no exterior.

Nilmar abreviou sua carreira por decisão própria, em nome de uma doença: a depressão. Essa macambúzia prima-irmã da ansiedade, que forma com ela uma espécie de dragão de duas cabeças que já se transformou no novo Mal do Século.

Já se sabia da doença de Nilmar. Mas nesse fim de semana, pela primeira vez, ele falou de peito aberto sobre a questão, em entrevista a Roger Flores, seu ex-companheiro de Corinthians, no Esporte Espetacular, programa dominical da TV Globo.

Não deixa de ser irônico que um menino que tantas alegrias deu a tanta gente tenha sido soterrado pela tristeza.

Nilmar deixou entrever às câmeras que se cobrava muito. Com seu biotipo leve, tinha que provar a cada rodada, dentro de campo, para si mesmo e para os outros, que poderia superar as defesas adversárias. Se cobrava mais tempo, e tempo de qualidade, com os filhos. Se cobrava por estar sentindo, e por não conseguir superar, aquela melancolia brutal, cinzenta, que lhe envolvia cada vez mais e que lhe paralisava e que, em determinado momento, lhe fazia chorar o tempo todo.

Nilmar é um ótimo jogador – que, ao que parece, se açoitava para ser ainda melhor. Ele aparenta ser um bom pai – que se martirizava para ser um pai irretocável. Estava ali um ser humano que não se permitia a falha, que não admitia sequer estar sofrendo – se cobrava ter sempre um sorriso inabalável e acolhedor para oferecer a sua mulher, a seus filhos, a sua família. Como talvez se cobrasse por títulos sempre maiores, e por ser artilheiro de todos os campeonatos, em todos os anos, e por voltar a ser convocado à Seleção Brasileira.

Como tantos indivíduos que sofrem com a depressão, Nilmar talvez seja, no fundo, um ansioso crônico.

E aqui eu posso falar como alguém que veste essa mesma camisa malvada, e que joga esse mesmo esporte cruel. (Escrevi um livro sobre isso. Um dos artigos você pode ler aqui.)

Eu sei como é. De tanto que você idealiza as coisas, você deixa de curti-las. De tanto que você só enxerga a parte vazia do copo, você deixa de enxergar o tanto que seu copo está cheio. De tanto que você vive pelo chicote das suas próprias expectativas a seu respeito, e pelas expectativas dos outros que você introjeta, hiperdimensiona e assume como suas, você se torna um autocobrador insaciável, um insatisfeito cuja insatisfação é impossível de satisfazer, um sujeito que vive pela eterna falta do que não tem, do que ainda falta conseguir – ou então pelo eterno medo de perder aquilo que já alcançou.

De tanto querer ter tudo sob controle, com risco zero (e a vida é incontrolável; trata-se de um fluxo com o qual podemos apenas aprender a lidar da melhor maneira possível), o sujeito implode. É muita pressão, e do tipo que aleija: a pressão autoimposta.

Eis aí uma receita certeira para a infelicidade. (E eu nem sei se ela traduz o caso do Nilmar – estou revelando aqui, sobretudo, o que aprendi trilhando com meus próprios pés esse calvário.) A gente deseja muito, a gente acalenta sonhos que nascem como bebês risonhos e às vezes se transformam em verdugos. A gente idealiza nos outros um sucesso que nos agride (e que quase nunca é real – se víssemos a grama do vizinho como ela realmente é, perceberíamos que ela também não é tão verde nem tão perfeita). Então a gente não se perdoa, a gente não se dá folga por um segundo sequer.

Numa profissão em que há tantos profissionais pouco profissionais, tanto talento que trata a si mesmo e a própria carreira com inconsequência, em especial aqui no Brasil, em que o futebol insiste em ser uma indústria muito amadora, Nilmar talvez esteja sendo punido por ser responsável demais, por se levar a sério demais, por buscar de modo inegociável uma perfeição que não existe em pessoa alguma, em profissão alguma, em lugar algum.

Especialmente porque, com Nilmar, tudo isso acontece numa carreira curtíssima, que mal começou e já termina. Uma carreira com alta taxa de estresse – em que você não pode errar, em que é preciso vencer sempre (especialmente quando a sua função específica é marcar os gols do seu time). Uma carreira muito competitiva – em que um dá certo, enquanto mil ficam pelo caminho. E em que o profissional se torna uma pessoa pública, que catalisa os amores, os ódios, a adoração e as frustrações de milhões de pessoas – quando só tem vinte e poucos anos e, na maioria das vezes, não traz o menor preparo emocional para lidar com pesos dessa monta.

De tanto querer ter tudo sob controle, com risco zero (a vida é incontrolável e o risco, inevitável), o sujeito implode. É muita pressão, e do tipo que aleija: a pressão autoimposta.

E não é diferente com executivos, empreendedores, profissionais liberais. Ou com donas de casa, estudantes, operários. Ou com mães, pais e filhos e filhas de família. Somos milhões que se comportam assim. E que se impõem esse tribalium maluco. Como contraponto dessa ansiedade toda, que nos desassossega, que não nos permite um instante de satisfação com aquilo que já alcançamos ser e com aquilo que já conquistamos, surge um gatilho que o corpo usa quando não aguenta mais tanta descarga de adrenalina – uma chave em que você desliga a si mesmo. Eis aí, ela, a prima-irmã (ou a filha, o alter ego) da ansiedade: a depressão.

Uma vez tendo caído nessa armadilha, você entra numa gangorra insalubre, alternando picos de euforia com crises de pânico que lhe derrubam até os vales mais profundos da existência, onde não há luz nem som, nem esperança, nem desejo de absolutamente nada, nem energia para realizar coisa nenhuma. É quando o sujeito, para compensar quimicamente a adrenalina liberada pelos momentos de ansiedade, arrasta o rosto nos subterrâneos lodosos da depressão. Trata-se de uma estufa pegajosa, uma espécie de kryptonita capaz de pôr a nocaute até mesmo super-heróis que já mandaram estádios inteiros, lotados, pelos ares.

O ansioso é um cara que não se dá o direito à satisfação. Nunca. É um sujeito que está sempre em débito consigo mesmo – que cria para si uma fatura impagável. Ele se cobra ao limite da angústia. Até que desiste e tudo vira modorra e desespero. Em seguida, o ciclo começa de novo. Em moto-contínuo.

Volto a Nilmar. Difícil pensar num cara mais bem-sucedido. Jovem, talentoso, reconhecido, amado. Um menino bem-apessoado que veio do interior, construiu uma carreira vitoriosa, enriqueceu, encontrou uma mulher bonita e companheira, gerou um casal de filhos lindos e saudáveis.

Agora pense no quanto esse sucesso todo, uma espécie de conto de fadas para a maioria dos seres humanos (ao menos quando você olha de fora), pode ser precisamente um dos gatilhos para as crises de ansiedade que o levaram ao inferno da depressão. Porque uma trajetória de herói, muitas vezes, gera ainda mais compromisso e dívida. Porque, quando você construiu a história de príncipe com que sonhou para si lá atrás, há grande desassossego na ideia de perdê-la.

Se cada um de nós conseguisse ser feliz com aquilo que é, e se pudesse dormir tranquilo com aquilo que tem; e se tivéssemos o desapego de reconhecer a impermanência de todas as coisas, inclusive daquilo que mais amamos, e inclusive de nós mesmos; e se tivéssemos a confiança de que aconteça o que acontecer, a gente vai dar um jeito; e se encontrássemos paz em simplesmente fazer o nosso melhor, e não se preocupar com mais nada, especialmente com as coisas que estão fora do nosso controle, bem, não haveria tanta ansiedade nem tanta depressão mundo afora.

Mas aí talvez fôssemos seres perfeitos e não seres humanos. E o ponto aqui é exatamente esse: admitir a que a vida é imperfeita. E que, por mais que nos esforcemos, nós também o somos. E que, ainda assim, vale a pena vivê-la intensamente. E que, ainda assim, podemos escrever uma história bonita. Como a sua, Nilmar, meu irmão.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

]]>
0
As críticas ao VAR revelam nosso apego ao passado e à imprecisão http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/10/as-criticas-ao-var-revelam-nosso-apego-ao-passado-e-a-imprecisao/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/10/as-criticas-ao-var-revelam-nosso-apego-ao-passado-e-a-imprecisao/#respond Wed, 10 Apr 2019 20:58:44 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=51  

Bem, amigos, é o seguinte: não faz o menor sentido criticar o VAR – o Video Assistant Referee, ou Árbitro Assistente de Vídeo, sistema que permite que o juiz da partida de futebol, que atua no campo, em tempo real, dependendo apenas dos seus parcos sentidos, e da atuação de seus auxiliares, tão humanos e falíveis quanto ele, revise lances, antes de confirmar suas decisões, com o auxílio de uma equipe que fica num estúdio de TV, com acesso ao replay de imagens da partida, obtidas de vários ângulos e em várias velocidades de reprodução.

O uso do VAR, inaugurado no mundo em 2016 e no Brasil em 2017, se aplica a 19 situações de jogo, entre elas: gols, pênaltis, cartão vermelho direto e erro de identificação de jogadores na aplicação de cartões.

O VAR tem sido muito criticado por alguns narradores, comentaristas, técnicos e jogadores aqui no Brasil. Tem-se falado em redução da autoridade do juiz ou dos auxiliares. Penso que, na verdade, ocorre o contrário: quanto mais você erra, menos autoridade você tem. Quando menos erros você comete, mais cresce a sua autoridade. Como o VAR reduz drasticamente o espaço para erros na atuação dos árbitros (sejam eles bem ou mal-intencionados), penso que ele só contribui para o aumento da autoridade de juízes e auxiliares.

O VAR não é outra coisa que não isso: o futebol lançando mão dos instrumentos mais precisos disponíveis para reduzir o número de decisões infames. Um dia a solução encontrada foi colocar três juízes em campo. Esse número depois seria aumentad0 para seis. Hoje, o uso do vídeo parece ser a melhor ferramenta disponível. (O futebol está atrasado nisso. O vôlei e o basquete, bem como a maioria dos outros esportes, já usam desse tipo de recurso faz tempo.)

Penso que em breve nos perguntaremos como fazíamos quando dependíamos de um árbitro, nem sempre com a melhor colocação possível dentro do campo, auxiliado por bandeirinhas correndo em paralelo à jogada, a 30 ou 40 metros do lance, para tomar sozinho todas as decisões cabais em uma partida.

E logo adiante, é possível que tenhamos chips em todos os lugares – na bola, nas traves, nas linhas do campo, nas chuteiras e no uniforme dos jogadores. E o próprio VAR, que reduz a influência da interpretação humana, mas ainda depende dela, venha a ficar obsoleto. Num mundo em que os carros não precisarão mais de motoristas, é apenas lógico que as competições esportivas também não precisem mais de um juiz.

Tem-se falado também que o recurso do VAR interrompe a partida por um tempo longo demais. Discordo. Primeiro: a decisão correta, escorreita, inatacável, a melhor decisão possível sobre um lance polêmico, vale um ou dois minutos. É um preço barato a pagar para corrigir injustiças históricas, eternas, impossíveis de reverter. Dois: o próprio tempo de decisão acrescenta um tanto de suspense, tensão e sofrimento ao espetáculo. Sim, o VAR, mesmo em seu aspecto menos eficiente, agrega valor ao camarote.

Parece inegável, portanto, que a revisão dos lances com o auxílio de vídeo, hoje, seja uma coisa boa. Desde, é claro, que você considere que a diminuição de erros em jogadas que podem decidir uma partida – e muitas vezes a classificação ou a eliminação de um clube, ou a decisão de um campeonato – seja uma coisa boa.

A única coisa que sai de cena com o VAR é a chance de um juiz estragar tudo. Lembram do Brasileiro de 2005, numa partida decisiva, em que Tinga, jogador do Inter, sofreu um pênalti escandaloso de Fabio Costa, goleiro corintiano, e além de não ter o pênalti marcado, ainda foi expulso, numa inversão completa de valores, num dos maiores absurdos (mas longe de ser o único) perpetrados pela arbitragem no Brasil? Com o VAR, aquilo dificilmente teria acontecido.

O VAR, portanto, só é ruim para quem gosta de zonas cinzentas (que normalmente favorecem os maiores e mais fortes, e prejudicam os menores e mais fracos), de situações sendo decididas no grito ou de forma emocional – ou com má-fé. Se você tem essa nostalgia, ou esse amor, pelo futebol como um terreno que alterna momentos de amadorismo com situações de franca bandidagem, bem, aí faz sentido que você se oponha ao VAR.

Assim como, se você imagina que a graça do futebol está justamente no erro, e no tanto que esse esporte sempre permitiu injustiças, não apenas aquelas relacionadas aos negócios escusos, mas também aquelas geradas no terreno da boa-fé, a partir de decisões tomadas com base na imprecisão, em fazer de qualquer jeito, de modo rápido, precipitado e burro, bem, aí você terá, sim, que virar o nariz para o VAR.

Como o VAR objetiva tudo, e torna as decisões muito mais transparentes, e as força a serem mais lógicas e mais corretas, ele acaba com o nosso conforto de achar um culpado fácil para as nossas eventuais derrotas e com o nosso vício de fabricar vilões que expiem as nossas próprias fraquezas. As mães dos bons juízes, que são maioria, agradecem desde já. E nós teremos que encontrar outros coros que deem vazão às nossas frustrações, ao nosso vitimismo e à nossa sanha de justiçamento sumário.

Ao discutirmos o VAR, estamos, no fundo, discutindo qual é o valor da correção e da precisão entre nós. O quanto estamos dispostos a fazer a coisa certa. E a paciência que estamos dispostos a dedicar, ou não, para chegar às melhores decisões, as mais justas e mais acertadas.

Da mesma forma, ao criticarmos o VAR, estamos, no fundo, criticando o futuro. E nos agarrando ao passado. Estamos dando um beiço à inovação, em nome da nostalgia de continuarmos fazendo as coisas do jeito que sempre fizemos – mesmo que esse jeito esteja obsoleto e ultrapassado.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

]]>
0
Ode à mulher de 50 anos http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/04/ode-a-mulher-de-50-anos/ http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/2019/04/04/ode-a-mulher-de-50-anos/#respond Thu, 04 Apr 2019 12:51:19 +0000 http://adrianosilva.blogosfera.uol.com.br/?p=45

Permita-me vir a este proscênio e afirmar de fronte alta: uma mulher é muito mais mulher aos 50 anos.

Eis o que quero dizer: tome a mesma moça aos 20 ou aos 30 anos. E depois a tome novamente aos 50. No segundo momento, ela será talvez umas cinco ou seis vezes mais mulher.

Aos 50, ela será mais interessante, mais suave e mais sedutora, mais completa e mais irresistível, do que quando jovenzinha. Talvez ela perca um pouco daquela pele esticada, daquele cetim virgem, imaculado, ainda cheirando a tinta. E daí? Sua pele estará mais macia. Terá mais curvas, para guardar em si as sinuosidades do tempo. Ela terá mais histórias impressas em seu corpo. Um convite ao desvelo.

E isso não significa que ela terá perdido o frescor juvenil. Porque o viço não está no colágeno da pele ou dos cabelos – o viço está no brilho do olhar, na intensidade do sorriso, na temperatura e na delicadeza do toque das mãos.

Aos 50, a mulher terá perdido o ar inseguro de quem ainda não sabe direito o que quer da vida, nem de si própria, nem de um homem ou de outra mulher. Ela talvez não possa mais sustentar um certo ar ingênuo, nem aquela sensual inocência de que fingia ser feita quando era jovenzinha. Tanto melhor.

Nada é mais sexy do que uma mulher experiente caminhando com ritmo próprio pela vida, num estágio mais avançado da curva de autoconhecimento. É encantador topar com uma mulher dona de si, que não deve nada a ninguém (nem sequer a si mesma), e que só vai na boa, quando quer, e aí vai fundo.

Aos 50, a mulher se conhece mais e é por isso muito mais autêntica, centrada, certeira – no modo como trata a si mesma e no modo como trata ao seu homem ou a sua mulher.

Aos 50, a mulher tem uma relação mais saudável com seu corpo. Tem orgulho da sua vulva, da sua vagina, das suas carnes sinuosas, do seu cheiro cítrico e tépido e úmido. Ela não briga mais com nada disso. Tampouco briga com a tradição torta que gerou esses e outros tantos tabus que ela soube descartar ao longo da vida.

Aos 50, na verdade, ela quer brigar o menos possível. (Ou então está decidida a escolher estrategicamente as brigas em que vai entrar.) Ela está muito mais interessada em absorver do mundo aquilo que lhe parecer justo e útil. E em ignorar aquilo que for feio e deprimente.

Aos 50, ela quer ser feliz o máximo que der. Porque o tempo adiante já não é infinito. Se o seu homem ou a sua mulher não gostarem dela do jeito que ela é, que vão procurar outra companhia. Uma mulher, aos 50, só quer quem a mereça.

Aos 50, uma mulher dominou a arte se vestir. Ela sabe valorizar as partes do corpo que lhes são pontos fortes e de tornar discretas aquelas que não interessa tanto mostrar. Melhora muito a qualidade da sua escolha de sapatos e acessórios, tecidos e decotes, cores e combinações. O mesmo vale para o uso de maquiagem e de cosméticos, dos cuidados com as unhas aos cortes e colorações de cabelos.

A mulher de 50 só vai na boa. Gasta mais porque tem mais dinheiro. Mas, sobretudo, gasta melhor. Tem gestos mais charmosos, posturas mais elegantes. É uma pessoa mais graciosa e temperada. Mais bem-humorada e (auto)irônica. A inteligência emocional de uma mulher, aos 50, não tem termo de comparação com o que ela podia aos 20 ou aos 30.

Aos 50, talvez ela tenha se tornado mãe. E já tenha se realizado nesse papel, se por ventura ela escolheu cumpri-lo. Ela talvez já esteja vivendo aquele interregno entre não ter mais filhos pequenos e já começar a prelibar a chegada futura dos netos. É uma fase mágica, em que ela começa a recuperar algumas prerrogativas de quem não tem mais crianças para cuidar – desde sair sexta à noite como se não houvesse amanhã até voltar a transar de improviso no sofá da sala, ou no chão da cozinha, sem o medo de que um pimpolho vá aparecer de repente por trás de uma porta.

Aos 50, ela está mais prática. Conhece os atalhos. Ela não é mais bobinha. (Se é que um dia o foi de verdade.) Carrega um olhar muito mais matador – quando interessa matar. E que finge indiferença com muito mais competência – quando interessa tergiversar. E que sabe repelir, quando é o caso de deixar claro que não é não.

Aos 50, ela estará menos inconstante. Saberá lidar melhor com as suas alterações de humor – e com as alterações de humor do seu ou da sua consorte.  Ela estará menos à mercê dos altos e baixos hormonais – curiosamente, no momento de encarar a menopausa, talvez o maior desafio hormonal da sua vida.

Jovenzinha, a mulher tem espinhas. Aos 50, ela terá pintas. Encantadoras, perfumadas trilhas de pintas sobre a sua tez aveludada. Jovenzinha, ela talvez ainda torcesse para ser escolhida. Aos 50, é ela quem escolhe. Jovenzinha, ela podia ter o hálito cansado de quando em vez. Aos 50, jamais.

Aos 50, ela aprendeu a se perfumar na quantidade certa. E com a fragrância exata para a sua pele, para a temperatura do dia, para os tons da roupa que está usando, e até mesmo para a pessoa que vai encontrar e para os assuntos que serão tratados.  A mulher de 50, muito mais do que aos 20 ou aos 30, cheira bem, tem um conjunto que dá gosto de olhar, que captura os sentidos, inebria, faz sonhar, dá fome.

Aos 50, a mulher é mais natural, mais chique, mais sábia, mais serena. Na mesma medida, menos ansiosa e menos estabanada. Mesmo seus dentes parecem mais claros. Seus lábios, mais reluzentes. Sua saliva, mais potável. Uma delícia.

Jovenzinha, talvez ela roesse unhas. E tivesse cutículas malcuidadas. Aos 50, ela constrói para si mãos plásticas, perfeitas, helênicas. Desenvolve um toque macio e quente, que sabe ser a um só tempo firme e suave.

Ocorre o mesmo com seus pés. Aos 50, os pés de uma mulher são tão apetitosos quanto uma tenra espiga de milho verde com manteiga derretida por cima. E são pés com uso. Que palmilharam o mundo. A gente olha para eles com o respeito, a gratidão e a empatia com que olha para veteranos bem-sucedidos.

Acontece alguma coisa também com os cílios da mulher de 50. No desenho das suas sobrancelhas. No seu jeito de olhar. Fica tudo mais uterino, mais luminoso, mais glamouroso, mais sexualmente arguto.

Aos 50, a mulher não faz mais experiências esdrúxulas. (Exceto quando é exatamente isso que deseja.) Então, quando ousa, no que quer que seja, ela costuma acertar em cheio. No jogo sexual, já testou muitas táticas. Já experimentou de tudo. Tem um arsenal de estratégias em seu cofre secreto. Quando dá o bote, é para liquidar a fatura. Ela sabe dominar seu parceiro ou sua parceira sem que ele ou ela se sinta dominado.

Ao 50, a mulher mostra sua força na hora certa, de modo sutil. Não como uma exibição besta de poder – mas exatamente para resolver tudo a seu favor antes de chegar ao ponto de precisar exibi-lo. Assim, garante para si o que quer sem a necessidade de confrontos inúteis. Aos 50, ela exerce o soft power, o poder feminino, com a maior competência.

Aos 50, ela também brinca com a sua pretensa fragilidade como uma ferramenta lúdica de prazer – seu e do seu homem ou da sua mulher. Sabiamente, goza de todas as prerrogativas da condição feminina sem ter que engolir nenhum sapo. Acho que o tal “sagrado feminino” é isso. Um lugar tão bom, que vai lhe envolvendo de modo tão cálido, que, quando você percebe, já está lá dentro, cativo, e não quer sair dali nunca mais.

Se você anda preocupada porque não tem mais 20 ou 30 anos, porque percebeu que a sua juventude não durou ou não vai durar para sempre, ou se anda aflita porque está para completar 50 anos, ou triste porque já chegou a essa casa do tabuleiro, fique tranquila, relaxe, deixe de bobagem, desencane. Saiba que é precisamente aos 50 que você chegou lá, que você atingiu o seu próprio ápice e que o jogo tem tudo para ganhar as cores mais bacanas que ele jamais teve ou terá.

 

Adriano Silva é jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo.

]]>
0