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Adriano Silva

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Como estou contribuindo para o fim dos livros e das livrarias

Adriano Silva

2021-03-20T19:12:00

21/03/2019 12h00

 

Eu sou um escritor. No fundo, é o que eu sempre fiz. E o que eu sempre quis fazer.

Acabo de lançar meu nono livro, A República dos Editores – As histórias de uma década vertiginosa na Editora Abril, um depoimento, cheio de confissões e de passagens de bastidores, que remonta os anos em que fui revisteiro e que oferece uma cronologia inédita dos últimos 20 anos da Editora Abril.

Como você sabe, a Livraria Cultura e a Livraria Saraiva, as maiores do país, estão em situação pré-falimentar. Há muito tempo que elas estão inadimplentes, por exemplo, com grande parte das editoras que lhes fornecem os produtos que elas costumavam por na prateleira.

Trata-se de mais um tapa na cara trazido pelos ciclos curtos da Nova Economia, em que os modelos de negócios não têm mais condição de seguir, incólumes, por décadas a fio. A velocidade das transformações tecnológicas e das mudanças no hábito dos consumidores não permite que nenhum de nós siga fazendo as coisas como sempre fizemos.

Eu adoro livro. Gosto do cheiro, de manusear o objeto físico. Acho que capa de livro é uma forma de arte, que a combinação do tipo de papel, com a família e o corpo da letra, com a mancha e o entrelinhamento certos, empresta ao livro uma crocância que é, a meu ver, uma experiência estética que não existe noutro lugar.

No entanto, eu que escrevo, que vendo livros, que compro livros, que gosto muito de ler, há muito tempo visito as livrarias físicas sem comprar nada, como se fossem um show-room, uma loja-conceito. Confiro os lançamentos, os destaques, a curadoria livreira que me é oferecida ali, e depois compro tudo pela internet. Muitas vezes chegava a fotografar o livro na loja, com uma pitada de remorso, para depois comprá-lo online.

Costumava finalizar a compra na própria loja digital da livraria, dando uma leve conferida nos preços em outras megastores. Talvez para tentar manter um mínimo de lealdade. Mas já havia morrido ali um hábito. Eu passara a comprar livros físicos em lojas online. Um comportamento que, ao ser adotado em conjunto pelos demais clientes, torna as livrarias físicas inviáveis financeiramente.

Desde que comprei um reader, morreu em mim um segundo hábito: comprar o livro físico, de modo digital ou não. Agora só compro livro digital, numa operação totalmente virtual. Continuo visitando livrarias. Mas não sou definitivamente mais cliente daquelas ofertas, naqueles formatos. Não compro daqueles livreiros nem em suas lojas físicas, nem em suas lojas online. Compro arquivos digitais num ambiente digital que me oferece uma experiência digital completa – da consulta à leitura, passando pelo recebimento de sugestões, pelo download de amostras e pela compra. (Em cinco segundos, sem sair do sofá ou da cama, o livro está disponível na minha tela.)

Claro que me sinto um bocado culpado por isso. Ao mesmo tempo, nunca li tanto, tão rápido, com tanto gosto. Regulo o tipo e o corpo da letra do jeito que eu quiser, não preciso mais de uma lâmpada ligada para ler à noite, carrego 500 livros num gadget que pesa 100 gramas, e tenho dicionários à disposição de um toque na tela – bem como a chance de fazer marcações e de escrever notas. Adoro papel. Mas a experiência toda do Kindle, o reader que comprei, é fantástica.

O ponto é que com a bancarrota provável das livrarias, dado que elas estão perdendo rapidamente a sua relevância para o consumidor final, as próprias editoras terão que se reinventar. Ou vão falir junto com o antigo varejo do livro. Toda a cadeia do livro, que já era frágil aqui no Brasil (diz-se que o Brasil não tem mais do que 2 milhões de pessoas que cultivam efetivamente o hábito de ler e de comprar livros), está com uma enorme luz amarela acesa sobre sua cabeça.

Se do ponto de vista do leitor, a transformação digital dessa indústria traz uma oferta irrecusável, do ponto de vista do autor a situação não é muito diferente. No modelo tradicional, você pode receber tão pouco quanto 8% do preço de capa de um livro que lhe tomou dois anos de trabalho duro para escrever, em relatórios de venda que demoram inacreditáveis seis meses para ficarem prontos. O que uma boa editora fazia por você era divulgar seu livro na imprensa (ambiente que também encolhe, inclusive em poder de influenciar) e colocar o seu livro bem exposto nas prateleiras das… opa, onde mesmo?

No modelo digital, para o autor, no modelo de autopublicação, você fica com 70% do preço de capa, e começa a receber na semana seguinte à publicação da sua obra, diretamente em sua conta bancária. E tem acesso a relatórios de venda em tempo real. Em ambos os cenários, no fim do dia, quem tem que trabalhar para divulgar e para vender o livro é o próprio autor. Ou seja…

Torço pelas livrarias. E torço pelas editoras. Torço para que reinventem a sua relevância – e o seu lugar na cadeia de valor do livro. Torço pelo livro. Inclusive em papel. Mas não torço contra os novos tempos, não. Que aproximam os produtores dos consumidores. Que questionam a função dos intermediários, de qualquer natureza, em qualquer ramo.

O mundo segue girando. Em geral, para frente. E o resultado disso, de modo geral, é bom.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Jornalista e empreendedor, CEO & Founder da The Factory e Publisher do Projeto Draft. Autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores. Foi Diretor de Redação da Superinteressante e Chefe de Redação do Fantástico.